Ciência e Saúde

Crianças com síndrome congênita do zika têm risco até 34 vezes maior de internação por epilepsia

Foto: DIRCEU AURÉLIO / IMPRENSA MG

A epilepsia figura entre as complicações mais graves enfrentadas por crianças com síndrome congênita do zika (SCZ), trazendo impactos profundos para a rotina das famílias e aumentando de forma significativa a necessidade de cuidados médicos. Um estudo recente revela que o risco de internação hospitalar por epilepsia é consideravelmente maior nesse grupo, especialmente nos primeiros anos de vida, o que reforça a importância do acompanhamento especializado desde o nascimento.

Publicado em 1º de dezembro na revista Jama Pediatrics, o estudo analisou dados de aproximadamente 10 milhões de crianças brasileiras para investigar a relação entre a exposição ao vírus zika e o risco de hospitalização por epilepsia. A pesquisa foi conduzida por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e incluiu crianças nascidas entre 2015 e 2018.

Os resultados indicam que crianças com síndrome congênita do zika apresentam um risco de internação por epilepsia até 34 vezes maior em comparação com crianças sem a condição. Segundo os autores, até então eram poucos os estudos que tratavam a epilepsia como um desfecho central em crianças com SCZ, assim como eram raras as análises que comparavam três grupos distintos: crianças com a síndrome, crianças expostas ao vírus durante a gestação mas sem a síndrome, e crianças não expostas ao zika.

Para João Guilherme Tedde, pesquisador da Fiocruz Bahia e líder do estudo, o diferencial da pesquisa foi o tamanho da amostra e a diversidade dos perfis avaliados. “Foi possível avaliar crianças de diferentes regiões do país, com contextos sociais distintos e quadros clínicos variados, desde crises mais leves até formas graves de epilepsia”, afirmou, em comunicado.

A análise considerou fatores como raça e etnia, condições socioeconômicas, acesso aos serviços de saúde e tipo de atendimento recebido, tanto na rede privada quanto no Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com o pesquisador, esses aspectos sociais e estruturais são fundamentais para compreender o risco de internação e produzir evidências mais robustas.

Os dados mostram que o risco de hospitalização por epilepsia é particularmente elevado nos primeiros quatro anos de vida das crianças com SCZ. Nesse período, a probabilidade de internação foi 34 vezes maior do que entre crianças sem a síndrome. O estudo também identificou um risco maior de óbito nesse grupo, quando comparado tanto a crianças não expostas ao vírus quanto àquelas expostas durante a gestação, mas que não desenvolveram a síndrome.

Outro achado relevante é que o risco elevado de epilepsia não se restringe aos casos de microcefalia. Segundo João Guilherme, crianças com tamanho de cabeça normal ou até aumentado também podem ser afetadas, o que indica que o problema está relacionado à própria síndrome congênita do zika, e não apenas a uma característica específica. Em contraste, crianças expostas ao vírus zika no útero, mas que não desenvolveram a SCZ, não apresentaram aumento do risco de internação por epilepsia em relação às não expostas.

Os resultados reforçam a associação entre a síndrome congênita do zika e problemas neurológicos graves, que elevam a frequência de internações e o risco de morte na infância. Para os pesquisadores, os dados evidenciam a necessidade de uma resposta organizada do sistema de saúde desde o nascimento. A preparação do SUS para atuar tanto nos primeiros anos de vida quanto no cuidado das sequelas de longo prazo é considerada fundamental, assim como o monitoramento do desenvolvimento neurológico e a atuação de equipes de reabilitação nos casos mais graves.

O estudo também destaca a importância do apoio psicológico às famílias, diante da rotina intensa de cuidados e do impacto emocional das internações recorrentes. Segundo os autores, políticas públicas com linhas de cuidado bem definidas podem reduzir complicações, melhorar o controle das crises epilépticas e proporcionar mais qualidade de vida às crianças e aos seus cuidadores.

Com informações do Metrópoles