A sutileza foi, mais uma vez, a grande chave da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Aplicada nesse domingo (4) com os testes de linguagens e ciências humanas, a prova, considerada a mais importante, abriu o primeiro domingo da maior avaliação do país. A produção de textos fugiu do espectro das últimas edições, deixando de lado temas sociais ligados a direitos humanos e minorias – reforçados em outras provas – para tratar de algo bem atual, que interfere na vida da maioria da população. Por isso, surpreendeu candidatos ao pedir para os participantes escreverem sobre a “manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”.

De acordo com os estudantes, textos de suporte apresentavam dados sobre o percentual de pessoas por faixa etária e social que usam a internet e os códigos do que gostam ou não. Um deles era sobre um site de música que, toda segunda-feira, recebe informação do que seus usuários gostam de ouvir. Assim, o tema exigiu falar da manipulação, mas a partir da base de dados. “É um tema que não surpreende, pois sempre trabalhamos em sala a questão da internet e das redes sociais. O que pega o candidato e é o ponto em que ele precisava focar foi a questão do controle de dados”, afirma o diretor do Colégio Arnaldo, Geraldo Júnio.

“Não precisa ser especialista para falar dos algoritmos que Google e Facebook usam para fazer publicidade, mas mostrar conhecimento de que os dados são usados para fazer propaganda. Juntando com a lei de proteção de dados pessoais na internet, aprovada pelo Congresso em julho e definindo que quem tem os dados é responsável por ele, dá um bom repertório”, completa. Os algoritmos permitem saber o quê o usuário busca e a que horas busca, podendo influenciar na escolha e na navegação dele, ou seja, por meio do comportamento, as empresas direcionam a navegação e fazem o inverso: manipulam na internet para influenciar o comportamento do usuário.

Por esses detalhes, os candidatos precisaram ontem de atenção para não sair do foco. Fake news é um das argumentações que podiam ter sido usadas, mas sempre tendo em mente que não bastava falar apenas da manipulação, sendo fundamental abordar as bases de dados por trás delas, conforme explica Geraldo Júnio. “É uma pegadinha bem sutil e é isso que o candidato precisa perceber que a banca quer. Nos últimos quatro anos, o Inep tem trabalhado essas sutilezas e definindo, assim, o recorte detalhado do que está sendo pedido.”

Outro ponto importante é a técnica da redação – uma estrutura dissertativo-argumentativa. Nesse caso, identificando o agente (os usuários) e o contexto (a própria internet) para redigir a proposta de intervenção. “O candidato pode facilmente ter desviado o foco do tema por falta de atenção ou pela inexperiência com essa estrutura de texto”, conclui o diretor do Arnaldo.

A professora Poliana Wink, do cursinho preparatório Chromos, por sua vez, diz que o tema era esperado, mas não com esse recorte. “Convivemos com essa questão diariamente. Uma das abordagens é a manipulação que as empresas podem fazer pelo nosso comportamento na internet, a partir de buscas, compras e outras questões. Principalmente, nosso comportamento como consumidor”, ressalta. Ela classificou o tema como “difícil”, em razão da desigualdade social do Brasil, onde nem toda a população tem acesso à internet.

Como argumentos que podiam ser usados para construção do texto, a docente aponta para o marco civil da internet. A lei permite que empresas privadas usem informações dos usuários, desde que com aceitação dos termos de uso. Além disso, Poliana aponta para os vazamentos de informações oficiais do WikiLeaks, por meio do analista de sistemas Edward Snowden, que criou uma crise diplomática entre diferentes países.

Objetivas

 Se a redação mudou seu viés social, pode-se dizer que, nesta edição, a prova de ciências humanas carregou a mão neles e trouxe temas já cobrados ou esperados na produção de texto, como racismo, violência contra mulher e direitos humanos. Assim como em edições anteriores, essa área e também a de linguagens usaram referenciais de pessoas em destaque na história para as questões objetivas. O cartunista Henfil foi um dos citados. “Alguns alunos acharam a prova deste ano mais fácil, outros mais difícil, mas essa variação é normal. Pelos autores que foram citados na contextualização, é possível afirmar que esses referenciais teóricos continuam sendo o carro-chefe do Enem”, destaca o diretor Geraldo Júnio.

Prisão em Minas

Dois irmãos gêmeos de 22 anos foram presos em flagrante, em Montes Claros, no Norte de Minas, suspeitos de tentar fraudar o Enem. De acordo com o delegado Dênis, da Polícia Federal, os dois acusados, que usavam ponto eletrônico, estavam sendo monitorados pela corporação. Balanço do Ministério da Educação (MEC) e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) mostra que a edição 2018 da avaliação teve a menor taxa de ausentes desde 2009.

As duas prisões foram as únicas no país, de acordo com o ministro da Educação, Rossieli Soares, e integram um conjunto de 71 ocorrências registradas em todo o Brasil que levaram à eliminação de candidatos. O coordenador-geral de Inteligência da Polícia Federal, Dênis Cali, explicou que os suspeitos foram flagrados durante rotina de fiscalização. “Fizemos um trabalho prévio junto com o Inep, por meio do qual foi realizado o cruzamento de candidatos com o banco da PF e pessoas foram elencadas como suspeitas. Nesses dois casos, eles foram detectados”, afirmou o delegado.

Os candidatos, Marcos e Mateus R. J, foram detidos pela Polícia Militar na Escola Estadual Armênio Veloso, no bairro de Lourdes. Um deles foi flagrado com uma fiação junto ao corpo, debaixo da camisa, e um ponto eletrônico. O outro estava com um ponto eletrônico no ouvido, além de portar duas carteiras de identidade falsa com nomes de pessoas que seriam naturais do Espírito Santo. Também foram apreendidos três telefones celulares amarrados às pernas dos candidatos. Os dois suspeitos foram encaminhados para a delegacia de plantão da Polícia Civil de Montes Claros. Ainda de acordo com Dênnis Calli, eles vão responder pelo artigo 311A do Código Penal – se utilizar de equipamento para obter vantagem em certame de curso superior.

O ministro lembrou que este ano houve aumento do número de equipamentos de detecção de metais. Dos 71 eliminados, 67 descumpriram regras gerais, como não atender orientação do fiscal de sala ou sair antes do horário da prova. “Houve uma redução grande. Antes era uma média de 150”, disse ontem. Em 32 locais de prova houve queda de energia elétrica e em dois deles as provas tiveram de ser interrompidas – Franca (SP) e Porto Nacional (TO). As provas serão aplicadas novamente em 11 e 12 de dezembro.

Abstenção

 Se o Enem 2017 foi marcado pela maior taxa de abstenção num período de sete anos (29,9%), em 2018, foi o inverso. A presidente do Inep, Maria Inês Fini, chamou a atenção para o fato de esta edição ter registrado o menor percentual dos últimos anos. Foram 24,9%, ou 1,3 milhão de participantes. Ao todo, pouco mais de 4,1 milhões de candidatos compareceram aos locais de prova – 5,5 milhões confirmaram presença no exame. Em Minas, a taxa de abstenção foi de 24,2% (141 mil faltantes). Para o ministro, isso é o reflexo das mudanças no edital, no tocante à regra de pagantes e gratuidade (quem faltar tem que justificar para manter a gratuidade para o próximo Enem).

“Esperávamos essa maior presença, afinal, desde 2016 estamos implementando ações para reduzir o número de ausentes e o gasto desnecessário do dinheiro público. Primeiro passamos a exigir mais dados dos participantes que solicitavam isenção, depois anunciamos a justificativa de ausência. Em 2018 concretizamos todo esse movimento com a criação de um período específico para solicitação de isenção da taxa de inscrição e para essa justificativa. Nesse mesmo período, ampliamos o perfil de participantes com direito a não pagar a taxa de inscrição”, explica Maria Inês. Entre 2013 e 2017, as ausências levaram a um prejuízo de quase R$ 1 bilhão aos cofres públicos. Dos mais de 2 milhões de ausentes no Enem 2017, 84% estavam isentos e apenas 4.345 (0,2%) conseguiram justificar a ausência e garantir a isenção também em 2018.

 

 

Fonte: Estado de Minas ||

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