O famoso verso de Tom Jobim sobre ?as águas de março fechando o verão? e o ditado popular que espera ?em dezembro, chuva; e em agosto, uva? já não são mais tão confiáveis para descrever o clima como eram antigamente. Mudanças nas condições atmosféricas verificadas nos últimos 30 anos tornam as estações quase irreconhecíveis. Exemplos recentes disso são, em pleno outono ? tradicionalmente associado ao clima ameno ?, a geada no Sul do Estado e a chuva que não dá sinais de trégua em Minas, inclusive com um temporal histórico no Triângulo.
Em Belo Horizonte, nas últimas três décadas, a temperatura mínima subiu 6°C e mudou o clima. Em 1979, os moradores chegaram a enfrentar 3,1°C no inverno. Mas desde então, a temperatura mínima registrada na capital foi de 9°C, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Nesse cenário, o meteorologista Ruibran dos Reis, do Climatempo, observa que a tendência é que as estações sejam cada vez menos homogêneas. Para ele, o aquecimento global e fenômenos como El Niño e La Niña contribuíram para que o clima fosse alterado vagarosamente.
?Até a década de 80, ainda tínhamos estações bem-definidas. Elas vão continuar existindo, claro. Mas principalmente a partir dos anos 2000, tivemos invernos não tão frios e primaveras muito quentes, como no ano passado, que registrou 37,1°C durante meados da estação. As mudanças drásticas que vemos hoje em lugares inimagináveis são fruto dessas transformações?, avalia.
Um exemplo dessa adversidade foi a geada que caiu sobre Itamogi, no Sul do Estado, na última terça-feira. Acostumados a temperaturas baixas apenas no inverno, moradores enfrentaram 2°C e viram os campos cobertos de gelo. ?Normalmente, o outono é mais ameno aqui. Geada era raro e só no inverno?, disse a ruralista Maria Fagundes, 62, moradora da região. Cerca de 12% de toda a plantação do município foi danificada pela geada, segundo a prefeitura.
Já em Uberlândia, no Triângulo, na última quarta-feira, choveu 172 milímetros em pouco mais de 24 horas ? três vezes mais do que a média histórica de maio, de 37 milímetros.
Futuro. Algumas estações do ano vão apresentar comportamentos ainda mais atípicos de agora em diante, segundo o meteorologista Heriberto dos Anjos, do TempoClima PUC Minas. Em Belo Horizonte, por exemplo, enquanto dezembro de 2011 foi o mais chuvoso dos últimos cem anos, com 720 milímetros, no mesmo período do ano passado deveria ter chovido 800 milímetros a mais do que foi registrado.
?Não é natural que isso aconteça, mas vai ocorrer outras vezes ainda porque existem adversidades naturais do clima e porque o cuidado com a atmosfera tem piorado?, disse.






