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Fim de 2021 – Comemoro, desconjuro ou agradeço? Eis a questão

Foto: Logo UN

Esta dúvida permeou meus pensamentos nesta madrugada: como definir o 2021, finalmente, em seus estertores? Com comemoração, agradecimentos ou desconjurando os 365 dias que se foram?

Pela manhã, de imediato resolvi agradecer a Deus por ainda estar vivo.  Isto apesar dos tropeços e das condições que a idade, digamos, avançada, impõe à nossa carcaça com tanta quilometragem rodada. Claro, de certa forma mantido por aqui às custas de inúmeros exames, de picadas, agulhadas e quilos de comprimidos engolidos ao longo dos últimos meses.

Pelo sim, pelo não, ainda estou por aqui, diante do teclado e conseguindo, por moto próprio, exprimir o que me vem à cabeça. Dia 25 deste mês, como fiz nos últimos 77 anos, agradeci a Deus, à família e aos amigos, por novamente acreditar que no próximo ano, quem sabe, esteja novamente tratando do mesmo tema, “passagem do Ano Velho”. Realmente, tenho todos os motivos para comemorar, até porquê, mesmo tendo sido obrigado a me manter recluso por longos e intermináveis meses, escapei de figurar naquela lista macabra que relaciona o nome, de mais de 619 mil brasileiros vitimados pela tal Covid-19.

E aqui, é óbvio, saio da fase da comemoração e do agradecimento para entrar no uso do verbo desconjurar. Desconjuro, abomino e repudio a todos aqueles que sendo autoridade, ou não, trabalhou, divulgou ou de alguma forma exerceu o negacionismo fazendo que este número que se imagina poderia ser infinitamente menor, ficasse de forma indelével registrado na história deste país como parte integrante da tal pandemia que assolou nosso mundo.

E o que é pior, com todas as chances de ser acrescido exponencialmente, e agora, quem sabe, registrando o nome de inocentes crianças que deveriam ser protegidas pelo governo e/ou por nós. Só que, pelo andar da carruagem e inexplicavelmente pela vontade de uns e outros imbecis instalados nos três poderes da República, ainda se insiste na adoção de providências no próprio interesse eleitoral, eles, se colocando contra a ciência e a prática de ações que, convenhamos, já foram adotadas em todo o mundo civilizado.

Aí me pergunto:  onde foi que errei, ou melhor, nós brasileiros erramos? Ao nascer aqui? Não! Certamente não! Até porque não temos condições de escolher onde ou quando aqui chegamos.  Mas, este último verbo, o escolher, pode sim, explicar, ou melhor, responder a este questionamento.

Erramos mais uma vez na hora da escolha, e não faz muito tempo. Foi na boca da urna, na hora do voto. Ainda que, como foi o meu caso, por falta de opção entre os candidatos a nós ofertados e, o que é pior, porque nos deixamos ser enganados pela falácia, pelas falsas promessas, pela lábia de uns e outros.

Mas agora, meus amigos, em 2022, ao que parece, teremos nova chance. Saibamos escolher, muito embora o cardápio que aos poucos se delineia  não me parece muito diferente daquele de 2018.

E concluindo, acabo de publicar a notícia do passamento de um grande jornalista, meu mestre e amigo, desde a juventude. Grande pensador, defensor da democracia, homem de coragem, exilado, perseguido, mas alguém que sabia a que veio, porque veio e para onde iríamos.

É com pesar que nesta última edição de 2021, muito a contragosto e deveras consternado, me vejo obrigado a noticiar a morte do jornalista José Maria Rabelo. Ele, o criador do BINÔMIO, que revolucionou a forma de interagir com seus leitores, transformando um jornal que ele mesmo definiu como sendo o “jornal que virou Minas de cabeça para baixo” no maior guardião dos interesses de Minas e do Brasil, por mais de uma década. E foi isto que lhe custou a implacável perseguição que culminou com a destruição da redação, após a queda do governo João Goulart, sem a menor resistência e com a implantação do regime militar no Brasil.

Registrando para a história, relembro que o Binômio, criado 12 anos antes como sendo “uma brincadeira de estudantes”, logo transformou-se numa publicação de projeção nacional e como disse, seu editor assim como o jornal, viveram momentos extremamente difíceis, sofreram pressões e violências de toda a ordem, mas jamais abriram mão de seus compromissos e de suas ideias.

Em meu nome e do Sindijori, onde Zé Maria participando de alguns de nossos encontros anuais, nos brindou com sua presença, simpatia e inteligentes explanações, deixo à família enlutada nossas condolências e a certeza de que o exemplo de retidão e defesa da liberdade de imprensa e da democracia, por ele vividos e deixados, nos nortearão para sempre! Descanse em paz amigo, e se puder, intervenha junto ao “Chefe” para que o 2022 seja menos sofrido para nós, os brasileiros, que ainda estamos por aqui.