Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva querem que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, participe de uma espécie de curso intensivo de palanque e vida partidária no segundo semestre, aproveitando a oportunidade aberta pelas eleições municipais. A idéia é dotá-la de mais jogo de cintura no trato com políticos e eleitores e, assim, aumentar suas credenciais para representar Lula na disputa presidencial de 2010. ?Este é o ano mais importante para o futuro da Dilma?, diz um ministro com gabinete no Palácio do Planalto.
A redação do roteiro está a cargo de auxiliares do presidente e de líderes no Congresso. Por enquanto, são previstos dois tipos de exercício. Um deles é conversar com representantes de pelo menos parte das 14 legendas que integram a coalizão governista, o que pode render apoio político e abrir portas. ?Seria bom para todo mundo se a ministra pudesse conhecer a visão dos partidos. Todos ganhariam, o governo, os aliados e ela mesma?, declara o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), que acrescenta jamais ter sido convidado por Dilma para tratar de política.
O segundo exercício é participar das disputas pelas principais prefeituras. O PT pretende levar Dilma aos palanques ainda no primeiro turno. Para um ministro, essa não é a melhor estratégia, pois pode ?queimá-la? com legendas governistas que serão adversárias dos petistas nos estados, como o PCdoB e o PSB. O melhor caminho, conforme o mesmo ministro, é dar visibilidade à ?mãe do PAC? só no segundo turno e nas grandes capitais do país. ?Acho que ela deve ser preservada no primeiro turno. Teremos tempo para escolher os palanques mais adequados?, afirma o ministro.
Favorita
No Palácio do Planalto, Dilma continua como favorita para ser a candidata de Lula em 2010. A capacidade gerencial, classificada de ?fantástica? por Lula, é um de seus trunfos para superar no páreo governista, entre outros, o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) e o ministro Patrus Ananias (Desenvolvimento Social e Combate à Fome). Mas só a competência como gestora não basta para ser a escolhida, como destacou o presidente em entrevista ao Estado de Minas. A ministra precisa reunir ingredientes políticos, observou Lula. Daí, a idéia do ?intensivão?. Hoje são poucas as pessoas que conversam com ela sobre política.
Do grupo seleto fazem parte, por exemplo, o próprio presidente, o ministro de Comunicação Social, Franklin Martins, e o líder do PT na Câmara, Henrique Fontana (RS). ?Eu gostaria de conversar mais sobre cenários, mas a ministra tem uma agenda de trabalho no governo que é monumental. Eu me esforço para conseguir um pouco mais de tempo para as conversas políticas, e não só com o PT, mas é muito difícil porque a ministra não aceita sacrificar a agenda oficial. Ela é muito zelosa e exigente consigo mesma?, diz Fontana.
Para um ministro que integra a chamada coordenação política do governo, a qual se reúne periodicamente com Lula no Planalto, Dilma se dedica integralmente ao papel de gerente da máquina. Além disso, ela respeita o papel institucional de cada um no governo. Se quer alguma informação do Congresso, Dilma recorre ao ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, cuja tarefa é lidar com as legendas da coalizão. ?Ela precisa associar a agenda oficial com as conversas políticas, mesmo que dedique 80% do tempo à primeira. Isso ajudaria a conhecer novas pessoas, pensamentos diferentes?, declara Eduardo Alves.
?Essa abertura a ministra ainda não se dispôs a ter. Ela é muito envolvida na questão administrativa.? No início do ano, o líder peemedebista ousou dar um bambolê a Dilma, a fim de ajudá-la a ter mais jogo de cintura: ?Ser mais tolerante é importante nas relações humanas, quanto mais na política?. Um ministro concorda com o deputado. Ele ressalta que jamais foi procurado para trocar idéias sobre política com Dilma. ?Esta é uma boa pergunta: com quem ela conversa??. Ressalva, no entanto, que a ministra dá mostras, a cada dia, de evolução no trato com os parlamentares e os eleitores.
O desempenho dela na audiência da Comissão de Infra-Estrutura do Senado sobre o suposto dossiê com gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é usado para justificar tal tese. ?É mais difícil dar um viés político a uma pessoa do que dotá-la de capacidade gerencial?, diz o ministro. Para Fontana, o desafio não é hercúleo como parece. Afinal, alega o deputado, a ministra teria uma respeitável trajetória política, marcada pela resistência à ditadura e cargos no primeiro escalão do governo federal e do Rio Grande do Sul. ?Criou-se um pouco essa mística de que ela é um quadro essencialmente técnico. A ministra tem um gosto enorme pela política?, avisa o petista.

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