Curiosidades

Lêmures de Madagascar usam milípedes como repelente natural

Foto: Freepik/Imagem ilustrativa

Os lêmures, primatas endêmicos da ilha de Madagascar, utilizam a inteligência para estratégias de sobrevivência que vão além do retratado em filmes como Madagascar (2005). Um dos comportamentos mais curiosos é a interação com milípedes – também chamados de piolho-de-cobra.

Quando encontram um desses artrópodes no chão, os lêmures o mastigam até que ele libere substâncias defensivas, como benzoquinonas. Em seguida, esfregam a mistura de secreção com saliva em seu corpo, funcionando como um repelente natural contra insetos. O comportamento é classificado como zoofarmacognose, quando um animal utiliza substâncias produzidas por outro organismo como medicamento e não como alimento.

Em Madagascar, esse comportamento é mais comum durante o período chuvoso. Com o aumento de milípedes, cresce também o risco de doenças transmitidas por vetores, inclusive uma forma de malária que pode atingir esses animais. Por isso, os lêmures utilizam as toxinas como repelente natural, afastando mosquitos transmissores de doenças”, explica o professor de biologia Luiz César de Assis, do Colégio Marista Goiânia, em Goiás.

Além da proteção contra insetos, a ingestão parcial da secreção pode ajudar no controle de vermes intestinais, especialmente em espécies como os lêmures-de-frente-vermelha. “Após a fricção, a ingestão parcial dos milípedes pode ajudar no controle de nematoides gastrointestinais da família Oxyuridae”, afirma o biólogo Mateus Almeida dos Santos, da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Segundo Luiz César, o comportamento é ancestral e transmitido de geração para geração. “Os mais jovens aprendem observando os indivíduos mais velhos realizando a mesma ação”, afirma.

Lêmures ficam “chapados” ao consumir milípedes?

Alguns pesquisadores levantam a hipótese de que os primatas podem ficar levemente entorpecidos ou eufóricos, já que algumas substâncias liberadas pelos milípedes têm efeito psicoativo em excesso. No entanto, não há consenso científico sobre essa possibilidade.

“Os lêmures apresentam respostas visuais intensas, como lábios enrolados, olhos semicerrados, caretas e salivação profusa. Isso parece mais ligado a prazer sensorial ou reflexo ao odor forte do que a alucinação”, ressalta Santos.

Comportamento traz riscos à sobrevivência

  • Apesar de proteger os lêmures de insetos e doenças, a prática também envolve riscos:
  • Exposição a toxinas: em excesso, as secreções podem irritar e prejudicar o organismo do animal.
  • Gasto de energia: extrair e aplicar a substância exige movimentos vigorosos, deixando o lêmure cansado.
  • Vulnerabilidade a predadores: ao focar na extração da secreção, o animal fica menos atento ao ambiente, tornando-se alvo mais fácil de caça.

Com informações do Metrópoles