Sem dúvida, ´Ventos do Norte´, que o saxofonista carioca Leo Gandelman lançou pela Saxsamba/Azul Music, é candidato a melhor álbum de música instrumental do ano no Brasil. Com o mesmo talento demonstrado em seus últimos álbuns, os notáveis ´Origens´ (2011) e ´Vip vop´ (2012), o artista faz um apanhado de 13 composições de saxofonistas nordestinos que, cada um à sua maneira, ajudaram a desenvolver uma linguagem própria para o instrumento no país.
?Foi um trabalho de pesquisa intenso, mas o resultado ficou muito musical, com peças leves?, afirma Gandelman. ?Cheguei a ficar com medo de que o disco ficasse muito denso?, confessa. Saxofone porque choras, clássica composição do paraibano Ratinho (Severino Rangel), com a qual abre o repertório, foi a primeira música que o saxofonista tocou em seu instrumento, ainda no início da carreira, desvendando nota por nota de ouvido, sem auxílio de partitura.
Gravado no Rio de Janeiro entre dezembro do ano passado a março deste ano, ´Ventos do Norte´ tem Gandelman se revezando entre os saxofones soprano, alto, tenor e barítono. Em estúdio, o artista contou com um time de primeira linha, formado por Henrique Cazes (cavaquinho), Lula Galvão (violão), Rogério Caetano (violão de sete cordas), Alberto Continentino (baixo acústico), Beto Cazes (percussão) e Rafael Barata (bateria). Maestro Spok (saxofones), Marcelo Caldi (acordeo) e Pretinho da Serrinha (percmussão) são alguns dos convidados especiais.
Os sergipanos Netinho (Pedro Silveira Neto) e Luiz Americano Rego, o potiguar K-Ximbinho (Sebastião Barros) e os pernambucanos Severino Araújo, Moacir Santos, Zumba (José Gonçalves Júnior) e Duda (José Ursicino da Silva) completam o quadro de compositores contemplados no disco, muitos deles nascidos antes dos anos 1930. Como costurar tudo? ?Com minha visão musical, interpretação e arranjos. Não houve preocupação em ser fiel demais ao texto. Usei algo mais contemporâneo para os arranjos?, responde Gandelman.
Dessa maneira, o saxofonista impressiona ao não deixar dúvidas sobre a existência do tal saxofone brasileiro em releituras inspiradas de ´Chorinha da Tula´ (Netinho), ´Dancing avenida´ (Luiz Americano Rego) e da maravilhosa ´Espinha de bacalhau´ (Severino Araújo), esta última peça escrita em resposta a choro complicado que um colega do maestro da Orquestra Tabajara, em João Pessoa (PB), havia escrito. Outro ponto alto é tocante performance de ´Ternura´ (K-Ximbinho) ? para não falar do já sabido alto nível das peças de Moacir Santos.
A assinatura final do disco é feita em dois tempos com a luxuosa participação do Maestro Spok nos frevos ´Cara lisa´ (Duda) e ´Bicho danado´ (Zumba), que assinou os arranjos do que ele e Gandelman tocaram. ?A linguagem desses saxofonistas que pesquisamos era muito diferente da dos saxofonistas norte-americanos da época. Aqui há uma linguagem própria, incluindo sonoridade e abordagem, fora as composições em si. A primeira referência dos estudantes é o jazz, mas aqui já existe uma escola de saxofone. Não faz o menor sentido quere tocar como os norte-americanos?, finaliza.

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