Cerca de quatro, cinco meses atrás, o título soaria espirituoso e talvez maldoso. Poderia muito bem estampar as páginas de jornais logo ali no espaço de fofocas, dividido com o horóscopo do dia e o que estava por acontecer nos capítulos das novelas, que as donas de casa adoram ler. Mas a balada de Ronaldinho Gaúcho, hoje, é outra.
Em quatro meses de Atlético, Ronaldinho fez um favor a ele mesmo. Ex-melhor jogador do mundo, craque indiscutível especialmente nos tempos de Barcelona, ganhador de uma Copa do Mundo pelo Brasil e também da Champions League ? a ?Copa do Mundo? dos clubes europeus ? pelo time espanhol, o gaúcho chegou ao Atlético com um futuro repleto de incertezas. ?Vai dar certo??. ?Ele vem para jogar??. ?Os bares de BH estão em festa!?. Foram muitas as interrogações e exclamações não só dos torcedores do Galo, mas também de quem gosta e acompanha futebol.
Ronaldinho vinha de um desgaste nítido no Flamengo. Ele parecia seguir a ?Vampeta Way Of Life? aplicada ao clube carioca: o Fla fingia que pagava, ele fingia que jogava. Mesmo fingindo, o meia teve alguns lampejos e andou decidindo jogos à favor do time da Gávea. Mas o Ronaldinho que chegaria ao Atlético era mais incógnita do que o que chegou ao Flamengo cheio de pompa.
Aliás, a eliminação da pompa talvez tenha sido a melhor tacada do Atlético. Alexandre Kalil fez jogada de Ronaldinho em suas melhores jornadas ao surpreender o país com sua contratação e colocá-lo para treinar na Cidade do Galo antes mesmo de apresentá-lo como jogador do clube.
Para mostrar Ronaldinho em seu novo canto, equipes de TV se esforçaram para fazer um registro visual do CT atleticano. Conseguiram, mas só por helicóptero. O Ronaldinho que chegava a Minas era outro. Compenetrado, chegou com discurso humilde, dando mostras de que tinha consciência que esta talvez seria esta sua última grande chance de jogar um futebol de alto nível técnico e competitivo. Não deve ser fácil para um cara que se acostumou com os aplausos nos principais palcos do futebol europeu durante anos ter que conviver com críticas e mais críticas em seu país e ser taxado de ultrapassado.
Quatro meses mais tarde, a balada do Gaúcho é outra. Sua pista de dança é o campo de futebol, onde já vestiu a camisa atleticana por 24 jogos. Marcou 7 gols, alguns deles ao seu estilo arrancada-drible-finalização impecável. Quem diria! Ainda deu 10 assistências para os companheiros, assistências estas que ele dá importância de gols no currículo. Bastou pouco mais de um turno de partidas para Ronaldinho suprir a ausência de lideranças que o Atlético não teve nos últimos tempos. Fez bem ao Galo de Alexandre Kalil, que luta constantemente para mudar o rumo da ambição do Atlético da última década, nem que isso custe o que custar.
Fez bem ao Galo de Ronaldinho, que tal qual os repórteres que buscaram a primeira imagem dele com a camisa alvinegra, hoje olha de cima as dúvidas e agouros dos críticos e o olhar desconfiado do torcedor brasileiro.
A balada de Ronaldinho hoje é a de um recomeço. Seja o Atlético campeão ou não, o Gaúcho hoje faz festa só para ele. Mesmo que ele tenha que driblar os dramas pessoais que qualquer ser humano precisa enfrentar, o jogador Ronaldinho quer continuar protagonizando sua própria festa. E neste quesito ele tem sido um ótimo anfitrião.

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