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Não seja omisso: ligue para a emergência

Foto: UN

A omissão em prestar socorro, ou mesmo em acionar os órgãos responsáveis por reprimir abusos em geral, pode trazer consequências irreversíveis para quem está sendo agredido.

Nas páginas 184 a 187 do livro Humanidade: uma história otimista do homem, Rutger Bregman narra o assassinato de Kitty, em Nova York, no dia 13 de março de 1964, por volta das 3h15 da madrugada.

Kitty acordou a vizinhança com seus gritos. Luzes foram acesas, janelas se abriram, vozes comentaram e uma gritou: “Deixe a garota em paz”. Mesmo assim, o agressor a esfaqueou pela segunda vez.

Cambaleando até a esquina, Kitty gritava: “Eu estou morrendo!”. Ninguém foi ajudá-la. Todos olharam e nada fizeram. O agressor retornou pela terceira vez e a esfaqueou novamente.

Às 3h50, a polícia recebeu o primeiro telefonema e chegou ao local em dois minutos, mas Kitty já estava morta.

O escritor cita ainda que o caso virou capa de jornal, com destaque para o fato de que 38 pessoas testemunharam o crime e nenhuma interveio.

Por que ninguém ajudou Kitty? Seria insensibilidade ou indiferença?

A explicação está no chamado efeito espectador, em que o anonimato das cidades, a falta de coesão entre vizinhos e, sobretudo, a sensação de que alguém já teria chamado a polícia fazem com que a responsabilidade se dilua.

Quando a responsabilidade se dilui entre muitos, ninguém se sente responsável. E é exatamente nesse vácuo que a tragédia se consuma.

Felizmente, existem pessoas que agem diante de cenas de abuso. A seguir, cito casos que ilustram bem essa diferença, sem mencionar os nomes das pessoas envolvidas.

Em um prédio, às 3 horas da madrugada, um morador ouviu um homem agredindo a companheira. Identificou o apartamento e chamou a polícia.

Na hora, a mulher negou a agressão e alegou ser apenas um desentendimento. No dia seguinte, porém, ela mesma expulsou o companheiro de casa, aos gritos, alegando que as agressões já tinham passado dos limites, inclusive porque os vizinhos haviam notado e reclamado.

Em outro caso, uma mulher pedia socorro em plena luz do dia. Um vizinho ouviu os gritos e acionou a polícia. Foi informado de que uma viatura já estava a caminho, pois outro morador também havia denunciado.

Em um terceiro caso, uma criança gritava por socorro em outro prédio, por volta de 1 hora da madrugada. Um morador chamou a polícia. Viaturas foram enviadas e constataram que os pais estavam em uma festa no salão do próprio condomínio, tendo deixado a criança sozinha em casa.

Esses episódios mostram o quanto é importante estarmos atentos aos abusos do cotidiano e, principalmente, dispostos a agir diante de um pedido de socorro.

Ninguém precisa se expor ou intervir fisicamente, pois basta não fechar os olhos e acionar quem tem o dever legal de agir. Um telefonema pode parecer pouco, mas é exatamente esse gesto simples que separa a indiferença da salvação.

Não pode existir neutralidade diante do sofrimento alheio.

Da próxima vez que um grito ecoar, lembre-se de Kitty e das 38 pessoas que preferiram esperar por outra. Não espere. Não presuma que alguém já ligou.

Não seja omisso. Ligue 190, ligue…

 

Euler Antônio Vespúcio