Na quarta-feira que passou, Olívio pegou um ônibus em Porto Alegre e se dirigiu ao local de concentração para acompanhar o julgamento da apelação de Lula ao TRF da 4ª Região. Na imprensa, tornou a repetir críticas que já vinha fazendo ao ex-presidente e ao próprio partido. Ironicamente, referiu-se ao livro de Frei Betto sobre a “mosca azul”, o inferno da vaidade que pica todos os que se veem em posição de mando no país.
Não vi Olívio em nenhum palanque. Com certeza apenas se misturou aos militantes anônimos que lá se encontravam.
Conheci-o na fundação do PT. O gaúcho bigodudo, moreno, com aquele sotaque cantado do Sul do país. Era um dos que Lula mais respeitava.
Certa vez, depois da cerimônia de fundação do partido, quando se iniciaram os preparativos para o registro oficial junto ao TSE, descobriu-se que alguém falsificara algumas fichas de filiação. Lula convocou a São Paulo aqueles em quem ele confiava e aqueles que entendiam de leis. Eu, evidentemente, estava entre os últimos, como coautora do primeiro estatuto. Olívio também estava lá. Fomos os únicos a sugerir que Altino Dantas, jornalista e militante por São Paulo, fosse em avião de carreira substituir as fichas rasuradas. Achávamos que não valia a pena corrermos riscos no Tribunal Superior Eleitoral. Lula nos apoiou e bateu o martelo (já deveríamos ter visto naquele gesto um certo mandonismo de Lula, que não ouviu a maioria, mas eu, juro, não prestei atenção nisso).
O tempo passou e só o encontrei nas reuniões do Diretório ou da Executiva nos anos seguintes. Acompanhei quando foi eleito prefeito e depois seu governador (o primeiro que tivemos no Rio Grande do Sul), e o exemplo que deu, voltando, depois desses mandatos, à vida humilde de quem andava de ônibus e morava num apartamento popular.
No primeiro governo Lula, Olívio foi o ministro das Cidades – a grande ou maior sacada que percebi na montagem da nova administração: o governo federal se imiscuindo lá na ponta, onde o povo pobre sofre, sobretudo ao tempo em que a submissão ao FMI impedia o governo de aplicar verbas em questões que só atendiam as populações pobres, como gastos em saneamento básico. Isso para não atrapalhar o superávit primário. Foi despedido, ele e toda sua excelente equipe, para entregar o ministério, de porteira fechada, ao PP de Paulo Maluf. Olívio se retirou de cena e nunca denunciou isso.
Dilma Rousseff surgiu com ele quando foi secretária de Minas e Energia do Rio Grande do Sul. Como integrante do PDT virou mito, porque lá no Rio Grande não houve apagão no apagão do governo FHC: não se lembraram que lá a energia é termoelétrica, e não hidroelétrica. Dilma veio com tudo para o governo Lula, já filiada ao PT, desbancando Luiz Pinguelli Rosa, nosso expert em Minas e Energia.
Aplaudo Olívio pelas críticas, mas ele não deixa claro para as bases de dentro e de fora do partido que Lula não mudou. E que deve responder pelos erros.
Se não, não vai haver conserto se, por acaso, ele vier a ser presidente da República de novo.

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