O desaparecimento acelerado do gelo marinho no Ártico está provocando mudanças significativas no oceano, segundo estudo publicado em 28 de maio na revista Communications Earth & Environment. A pesquisa mostra que a redução do gelo diminuiu a disponibilidade de nitrato, nutriente essencial para o crescimento do fitoplâncton, base da cadeia alimentar marinha.
O estudo foi conduzido por cientistas da Universidade de Edimburgo e outras instituições europeias, com base em dados coletados entre 1998 e 2023 no Estreito de Fram, localizado entre a Groenlândia e o arquipélago de Svalbard, na Noruega.
A região é uma das principais rotas de circulação das águas do Oceano Ártico. Os pesquisadores identificaram que o ecossistema entrou em uma nova fase por volta de 2009, quando a concentração de nitrato nas águas superficiais caiu de forma acentuada e permaneceu baixa até o fim da série analisada.
Nas últimas décadas, o Ártico perdeu grandes áreas de gelo marinho devido ao aumento das temperaturas globais. O estudo aponta que a cobertura de gelo nas regiões da Sibéria e do Alasca caiu cerca de 50% desde 1990.
Além disso, o gelo ficou mais jovem: a idade média caiu de 4,3 anos para 2,7 anos, indicando uma renovação mais rápida da cobertura congelada.
Com menos gelo, mais luz solar atinge o oceano, o que inicialmente favorece o crescimento do fitoplâncton, organismos microscópicos que sustentam peixes, aves e mamíferos marinhos.
Apesar do aumento inicial do fitoplâncton, o estudo aponta um efeito indireto do processo: quando esses organismos morrem, parte da matéria orgânica afunda e é decomposta por bactérias, que consomem compostos de nitrogênio e liberam parte dele na forma de gases.
Com o tempo, isso reduz a quantidade de nitrogênio disponível no oceano. Os dados mostram que a concentração média de nitrato caiu de 3,1 micromol por litro antes de 2009 para 1,7 micromol por litro depois desse período, chegando em alguns momentos próximos de zero.
Até 2023, os níveis não haviam retornado aos valores anteriores.
Os pesquisadores apontam que a disponibilidade de luz deixou de ser o principal fator limitante no Ártico. Agora, o nitrato passou a desempenhar papel central na produtividade marinha.
A redução do nutriente pode alterar a composição do fitoplâncton, favorecendo espécies menores adaptadas a ambientes com poucos nutrientes. Isso pode reduzir a transferência de energia ao longo da cadeia alimentar, afetando organismos que dependem desses microrganismos.
Além dos efeitos na cadeia alimentar, o estudo alerta que mudanças no fitoplâncton podem afetar a capacidade do oceano de absorver dióxido de carbono, já que esses organismos ajudam a remover CO₂ da atmosfera por meio da fotossíntese.
Os autores defendem que essas alterações sejam consideradas em projeções climáticas e ecológicas futuras, destacando que a perda de gelo marinho já está modificando processos fundamentais do Oceano Ártico, com possíveis impactos de longo prazo ainda em investigação.
Com informações do Metrópoles







