Ciência e Saúde

Pesquisa aponta que 73 milhões de brasileiros têm dificuldades para dormir bem

Muita gente perde o sono pensando nele. Mas, com insônia ou sem ela, dormir é um ato necessário ao organismo e intimamente ligado às condições emocionais e de estilo de vida. Há quem durma três horas e se sinta satisfeito. Os jovens boêmios acham que é perda de tempo. Os que têm poucas horas querem mais cinco minutos todas as manhãs. E existem aqueles que não dormem. O sono voltou aos holofotes nas últimas semanas com a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a produção e comercialização de um novo medicamento para insônia no Brasil. Dias antes, a Associação Brasileira do Sono fez um alerta: 36,5% dos brasileiros sofrem com o mal.

Dorme-se pouco em troca de trabalho, estudo, ascensão financeira e tantos outros motivos. A sociedade parou de valorizar o sono como um componente da qualidade de vida e se priva dele. Muitos de nós, realmente, sofrem com insônia crônica – uma doença que exige tratamento e, em casos extremos, até o uso de remédios. Mas ir para a cama e pregar o olho é um desafio cada vez maior e exige uma mudança de comportamento que pode não vir de caixas vendidas nas farmácias.

UMA LUTA NOTURNA 

Rita Lee, a rainha do rock brasileiro, expressou em forma de música o quão sofrido é não dormir. A música é inspirada em “minha pessoa”, como conta a artista. Ela canta assim: Insônia, minha namorada/Insônia de madrugada/Rolando na cama, estou tão cansada/Mas ela me chama/Ai, ai, insônia.

Como na canção, 73 milhões de brasileiros, segundo estimativa da Associação Brasileira do Sono, não conseguem dormir. O número é a soma dos habitantes dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás. Os dois primeiros são os mais populosos do país.

Uma das pessoas nessa multidão é Maria Eduarda Bueno, de 22 anos. Formada em direito, ela administra a empresa da família e estuda para concurso. Quer seguir a carreira de policial. O combustível para a insônia dela é a ansiedade. “Lidar com a pressão do estudo e da frustração de não passar numa prova é difícil”, conta. A jovem sorridente e descontraída já ficou três noites sem dormir. “Assisti a sete episódios de uma série numa noite” – cada capítulo tem cerca de 45 minutos. E emenda: “Deito uma hora antes da hora em que eu quero dormir. Apago as luzes, tento ler. Mas, quando não é dia de dormir, não tem jeito. Quando vejo, são 5h e tenho que me levantar”, reclama.

A celeuma noturna começou há um ano e meio. Na época, Duda, como é conhecida, estava finalizando o trabalho de conclusão de curso. A situação degringolou de tal forma que a moça passou a tomar remédios. “Uma vez, parei no pronto-socorro com dores na cabeça por estar há muito tempo sem dormir. Teria que tomar remédio todos os dias, mas não gosto. Só uso quando estou no meu limite. Eu tinha noites esporádicas em que não dormia, mas isso foi se acentuando. Nunca fui de dormir muito, mas não imaginava chegar a esse nível”, explica. Para Duda, uma noite bem-dormida tem, em média, quatro horas de sono.

Duda prefere terapias alternativas. Diariamente, ingere cápsulas com extrato de maracujá. O composto homeopático é usado como tranquilizante. “Antes de dormir, a sensação do remédio não é boa. Já acordei deitada no chão e tive alucinação”, reclama.

Quando o sono não vem 
Em alguns casos, a insônia aparece como causa – ela é a doença propriamente dita. Em outras situações, é consequência da manifestação de males de saúde, como a ansiedade

Mais de 11 milhões de brasileiros, o equivalente a 7,6% da população, usam medicamentos para dormir. O índice é um dos destaques da mais recente Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), divulgada no ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Até o fim do ano, uma nova droga deve chegar às farmácias. A ramelteona – que será produzida por um laboratório em São Paulo – imita mecanismo de ação da melatonina, isto é, desacelera o sistema nervoso central e contribui para a regulação do ciclo natural de sono. A ação é caracterizada no iniciar do sono.

Os cientistas que desenvolveram a ramelteona garantem que a substância pode evitar os efeitos colaterais atordoantes dos medicamentos sedativos, que funcionam retardando o sistema nervoso central. Desde 2005, o medicamento é comercializado nos Estados Unidos.

A ramelteona é inspirada no funcionamento do hormônio responsável pela desaceleração do sistema nervoso central e a indução do sono, a melatonina. Em vários países, a droga é vendida há mais de uma década. No Brasil, em outubro do ano passado, uma juíza do Distrito Federal chegou a determinar que a Anvisa autorizasse a comercialização e a produção da melatonina.

A medicina elenca três tipos de insônia: a “inicial”, quando se demora a pegar no sono; a de “manutenção”, quando há interrupções; e a “terminal”, que se caracteriza pelo despertar precoce, ou seja, acorda muito antes do horário que se deve. O que ocorre é que há situações em que a insônia aparece como causa – ela é a doença propriamente dita. Já em outras, é consequência – agravos de males de saúde, como a ansiedade.

 

Fonte: Uai – Saúde Plena ||https://www.uai.com.br/app/noticia/saude/2017/07/25/noticias-saude,210188/dormir-se-tornou-um-luxo-para-boa-parte-da-populacao.shtml