Quem já viveu a dor do luto sabe que não é nada fácil. Para os familiares de vítimas como a da tragédia ocorrida em Brumadinho, há quatro anos, a dor se mistura à espera dos processos judiciais, à torcida para que os crimes não fiquem impunes e também à incessante procura pelos três corpos até hoje não encontrados.

Mais do que a paisagem, a vida mudou completamente na cidade localizada a quase 50 quilômetros de Belo Horizonte em 25 de janeiro de 2019. Quando barragem de rejeitos da Mina Córrego do Feijão rompeu, o mar de lama arrastou toda a vida que encontrou pelo caminho: 272 pessoas morreram e outras centenas mergulharam em profundo sofrimento.

E nem todo mundo conseguiu enterrar seus mortos. Uma das vítimas até hoje desaparecia é Nathália de Oliveira Porto Araújo, de 25 anos, que era estagiária da Vale – empresa responsável pela mina – na época. Deixou dois filhos. Era conhecida pela tranquilidade e pelo amor a eles, como lembra a prima dela, Telma de Oliveira França, de 48 anos.

“A Nathália era uma pessoa tranquila, estudiosa e com uma dedicação imensa aos filhos. Era uma pessoa alegre, que gostava muito de viver”, diz a prima, lembrando que a jovem saía cedo para trabalhar “com um sorriso no rosto” e costumava retornar às 17h.

“Já se passou tanto tempo, mas parece que foi ontem. Seguimos vivenciando a dor desse luto diariamente, esperando que alguma coisa dela ainda seja encontrada, alguma coisa que representasse ela para podermos fazer um enterro digno já que o corpo não temos mais esperança de que seja localizado”.

Nathália foi criada pela tia. Com uma relação muito próxima, quase materna, a tia ainda espera pela volta da jovem. “Alguns dias, próximo ao horário que ela voltaria para casa, a nossa tia senta na porta esperando que minha prima apareça na rua voltando do trabalho. Parece que ela não quer aceitar que perdeu uma pessoa, que ela considerava uma filha, dessa maneira”, revela Telma, acrescentando que os filhos de Nathália, 7 e 9 anos, também sentem a dura perda. “Você olha para as crianças e percebe que elas não são felizes. Eles chamam por ela, perguntam em qual lado do céu a mamãe está. E quando a saudade aperta as crianças pedem para colocar uma escada que vá até o céu para que a mamãe possa descer e brincar com eles”, revela.

“A gente explica que a mãe deles virou uma estrela. Mas quando o céu está nublado e não dá para ver as estrelas eles questionam porque a mamãe não veio visitar eles”, complementou Telma, enfatizando que o fato de o corpo da prima ainda não ter sido encontrado prolonga a fase mais profunda do luto.

Segundo ela, a família toma remédios contra a ansiedade, pois ainda alimenta esperança diária de que ao menos algum fragmento do corpo seja encontrado. O sonho é poder enterrar e se despedir da prima.

“Espero que os responsáveis por toda essa situação sejam julgados e punidos”, cobra Telma.

Outras duas famílias esperam que seus entes queridos sejam encontrados.

Maria de Lurdes da Costa Bueno (abaixo), 59 anos, era corretora e passava férias em uma pousada localizada em Brumadinho no dia da tragédia. Além dela, os dois enteados, a nora e o marido foram soterrados pela lama. Somente o corpo dela não foi localizada até hoje.

Tiago Tadeu Mendes da Silva, 34 anos, era formado em engenharia mecânica e trabalhava na mina de Sarzedo, mas foi transferido para Brumadinho 20 dias antes do rompimento da barragem. Deixou dois filhos e a esposa.

De acordo com o Corpo de Bombeiros, a “Operação Brumadinho” é a maior ação da história da corporação, que segue empenhada na busca e recuperação: 30 pessoas estão ainda envolvidas na tarefa de encontrar as “joias” ainda desaparecidas.

Desde o início, a operação só foi interrompida em dois momentos: durante a pandemia da covid-19 e devido às fortes chuvas que atingiram a região metropolitana de BH no fim de 2021 e início de 2022.

Fonte: Hoje em Dia

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