Formiga

?Sem vestígios? é a indicação de leitura da semana

Nesta semana a Biblioteca Municipal Dr. Sócrates Bezerra de Menezes irá fazer os leitores descer aos porões mais revoltantes da ditadura militar com a indicação de leitura da semana.
A obra ?Sem vestígios?, da autora Taís Morais, levará o leitor a ter uma experiência chocante com a revelação de um agente secreto da ditadura militar brasileira.
A indicação faz parte do projeto No meio do caminho tem um livro, uma parceria entre o jornal e as bibliotecas da cidade.
Resenha
Imagine a seguinte cena: Carioca, um agente secreto da ditadura militar, que ajudou a prender o líder comunista David Capistrano da Costa, é acordado no meio da noite, por um colega, que o leva para assistir aos últimos momentos do infeliz personagem: preso, interrogado, torturado, aparentemente ele já não é útil e os comandantes militares do Palácio do Planalto já deram a ordem: matar e desaparecer com o corpo. E o corpo está lá, despedaçado, pendurado em ganchos, uma costela aqui, uma perna ali, pingando sangue.
Carioca, cujo final também haveria de ser trágico, tem ânsia de vômito ao ver a cena, mas, ao lado dele, outro agente ri cinicamente: o inimigo derrotado já não serve para nada e precisa ser descartado, sem deixar vestígios.
Essa é a questão: que vestígios sobraram daquele período negro em que homens, mulheres e até crianças, alguns deles inocentes, foram presos, torturados e mortos com requintes de sadismo por verdadeiras bestas que operaram num sangrento açougue humano?
Carioca, o agente que infelizmente é preciso deixar anônimo, deixou numa caixa os vestígios de suas ações e seu remorso. Seu depoimento fragmentado e atormentado, que Taís Morais costurou em livro, é uma acusação mais do que terrível: ele estava lá, participou dos atos. Investigou, prendeu, interrogou, matou. Algumas vezes matou sem necessidade, matou porque quis. Outras vezes, tentou não matar, mirou para errar o corpo. Mas os outros haveriam de acertar. Este livro dramático, terrível, em que pela primeira vez uma testemunha das atrocidades revela que estava lá e foi daquele jeito mesmo, terá sem dúvida uma repercussão intensa nos meios políticos e militares.
Muitos de seus personagens, os presidentes Médici e Geisel, o general Antônio Bandeira estão mortos e só poderão ser julgados pela história. Outros estão vivos e seus nomes não foram poupados. A sociedade brasileira discute no momento o que fazer com este lixo do passado. Esquecer já que houve uma anistia? Ou responsabilizar, ainda que ninguém seja preso de fato ou deixar de lado, finalmente, a busca de corpos que foram transformados em cinzas ou comida de peixes e não podem ser resgatados?