Agora não adianta mais colocar a culpa em São Pedro, dizendo que o excesso de chuvas disparou o gatilho que, praticamente, detonou e empurrou aquela rocha para cima das lanchas que circulavam junto às paredes do cânion lá em Capitólio.

Será bom que muitos se lembrem, de preferência antes de concederem as tristemente, porém, famosas entrevistas coletivas, que não faz muito tempo, alguns deles ainda culpavam São Pedro pelo esvaziamento criminoso do lago, alegando que, em face da escassez hídrica foram forçados a tomar a decisão de aumentar a vazão defluente, permitindo assim o funcionamento de alguns empreendimentos rio abaixo.

Num parêntese, gostaríamos de lembra-lhes que em primoroso artigo (desabafo) trazido a público esta semana, intitulado “Maiden Voyage” o professor Antônio Carlos Mendonça Nunes, nos relembra que foi após a tragédia conhecida como o acidente do RM S TITANIC (1912) que surgiu em 1914 a Convenção Internacional da Vida Humana no Mar, ou seja: foi o acidente que provocou mudanças nas regras de navegação, ainda hoje em vigor.

Voltando à coletiva, lá em Capitólio, lembramos que a citação mal escolhida, porém anunciada pelo senhor governador quando ele não  respondeu o questionamento de um órgão de imprensa e perguntou ao entrevistador se a queda de um raio  poderia ser atribuída à  responsabilidade do prefeito ou dele próprio, permitimo-nos respeitosamente lembrar-lhe que;  desde  1752, quando Benjamim Franklin inventou o para-raios, todos os que dele fizeram uso, evitaram ser atingidos pela tal “força da natureza” que, também de forma “inédita”, ainda atinge a muitos que não acreditam no adágio que diz: “sempre é melhor prevenir do que remediar”. 

E tem mais, o argumento de nosso governador e de seus assessores, também defendido pelo prefeito de Capitólio, afirmando que: “fomos surpreendidos por uma fatalidade, algo inédito que em mais de 110 anos nunca ocorreu por aqui” é falso, ou, no mínimo, explica a falta de conhecimento deles todos. Isto porque as fissuras lá ainda existentes e em grande quantidade, já anunciavam há muito, o risco de queda que, infelizmente ocorreu e se mostrou catastrófica. E o que é pior, elas (as autoridades) foram oficialmente comunicadas através de informação entregue a órgão do Estado, anos antes, conforme conta a engenheira de Minas, Carolina Takano, em excelente matéria trazida a público pelo jornal “O Tempo” e transcrita nesta nossa edição, à página 07.   

Como se explica, senhor governador, que o seu Gabinete Militar, cientificado do problema através de e-mail, respondido à engenheira, afirmando que, encaminharia, a denúncia à equipe técnica, agora, decorridos três anos, a sua Coordenadoria de Defesa Civil, o mesmo órgão que foi por ela cientificado, permite que o senhor venha a público e alegue que o Estado desconhecia a existência do problema (risco)?

E sobre a resposta do Estado e do município dizendo que a responsabilidade é da Marinha, será isto, verdade? Ela, a Marinha, por outro lado, em nota pública diz que ali, o ordenamento não é da responsabilidade dela.

Estes questionamentos precisam ser respondidos pelo Estado, pela União e pelo município. O fato é que, houve sim, descaso, incompetência, falta de cuidado com vidas humanas e que, os senhores enquanto governantes, têm o dever de por elas zelar.

As vidas que perdemos, é óbvio, não mais voltarão, mas outras, quem sabe, poderão vir a ser salvas se houver o cumprimento correto das atribuições que lhes cabem, senhores!

Neste caso, também nos parece claro que: se a cota mínima da represa fosse mantida em 762, como preceitua a Emenda Constitucional que está sendo solenemente descumprida, aquela pedra, alta e esguia, segundo alguns geólogos, provavelmente, teria se desprendido e caído verticalmente. Não, como ocorreu, tombando para frente. Se assim fosse, se parte dela estivesse submersa, provavelmente, seu poder destruidor teria sido muito menor.

Portanto, além das vidas perdidas, do estrago que o acidente ou incidente como queiram nomeá-lo trouxe e trará a sua, à nossa política de desenvolvimento do turismo em Minas, podemos a elas somar os zilhões de reais que o esvaziamento de Furnas, nos tem trazido, em especial nos últimos 10 anos, quando sucumbimos diante dos interesses de outros estados. Mais notadamente, em razão dos acordos espúrios e criminosos, que órgãos federais celebraram sem nos ouvirem, cerceando nosso direito constitucional de usufruirmos do multiuso de nossas águas, unicamente para favorecer hidrovias e outros empreendimentos na bacia do Grande/Paraná. Isto, a olhos vistos por todos nós, menos pelos que deveriam nos defender.

As chuvas de agora nos mostram e comprovam o que vínhamos alertando há anos. As previsões da ANA, ONS, ANEEL e de outros mais, versando sobre precipitações pluviométricas, só serviam a eles mesmos, para justificarem os aumentos de tarifa que, como hoje, são impostas a todos nós. Isto sem falar do risco energético a que a falta de planejamento nos submeteu nos últimos anos. Diante do que ocorreu no país nas últimas três semanas, perguntamos: como podemos acreditar nas promessas e nas políticas por eles mesmos traçadas, se ainda estamos sendo cobrados, (extorquidos), exatamente em nome de escassez hídrica?

Que a tragédia seja o marco do início de um novo tempo em busca de garantirmos a exploração de uma atividade turística sustentável, respeitando o meio ambiente e preservando o que temos de mais belo por aqui. Com menos propaganda e com mais ação, inclusive, no que concerne à segurança de todos, investidores e frequentadores. Para tanto, manter a represa com um nível satisfatório é algo imperioso. Sem isto o capital não chegará por aqui.

A tragédia não pode e nem deve ser tida como algo inédito. Ao contrário, ela estava sendo anunciada e poderá se repetir sim. Portanto, mãos à obra. Gente técnica e competente Minas tem aos montes. Vamos recrutá-los.

O exemplo de Brumadinho, infelizmente, ao que nos parece, não deu os resultados esperados! Não os financeiros para o Estado, pois, estes vieram sim, e em grande monta! Mas, o que mudou no quesito segurança? Ao que parece na área de prevenção, fiscalização e liberação, nada! O que se viu esta semana, ali mesmo perto de Nova Lima, corrobora com a nossa dúvida. Muito barro, e uma estratosférica multa a caminho do caixa estadual. E, infelizmente, mais uma família inteira soterrada dentro do próprio veículo.

O anuncio feito pelo governo desta semana exigindo informações de mineradoras, mais uma vez mostra o atraso na tal providência. Isto, não deveria ser feito meses antes do período chuvoso?

Voltando às águas, a verdade é que enquanto o ICMS incidir sobre o total da conta de energia, a contribuição de Escassez Hídrica permanecerá e será defendida por muito governante de plantão, é o que imaginamos venha a ocorrer.   

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