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Venezuela e a lógica das potências

Foto: UN

Comparar as administrações de Hugo Chávez e Nicolás Maduro ajuda a compreender como Estados Unidos, China e Rússia tendem a agir de forma semelhante quando seus interesses estratégicos são tensionados em seus entornos imediatos.

Hugo Chávez chegou ao poder em 1999 com amplo respaldo popular, sustentado pela promessa de refundação do Estado e redistribuição da renda. Seu governo combinou carisma pessoal, retórica anti-imperialista e políticas sociais abrangentes, financiadas pelo bom do petróleo. Embora centralizasse decisões, Chávez mantinha legitimidade eleitoral, forte capacidade de mobilização e preservava certo equilíbrio institucional, com canais de mediação política ainda ativos.

Nicolás Maduro, por sua vez, herdou o poder sem o carisma do antecessor e em condições econômicas muito mais adversas. O colapso dos preços do petróleo desencadeou hiperinflação, escassez de bens e um êxodo populacional sem precedentes. Diante da crise, sua resposta foi o fechamento progressivo do regime, com enfraquecimento do Legislativo, repressão à oposição e crescente dependência de aliados externos hostis aos Estados Unidos, como Rússia, China e Irã.

Nesse cenário, intensificou-se a pressão norte-americana. As sanções — e sua eventual flexibilização — vieram acompanhadas de exigências de alinhamento estratégico, sobretudo no setor petrolífero e na contenção de adversários geopolíticos. Trata-se menos de uma cruzada em defesa da democracia e mais de uma reafirmação da influência de Washington em uma área tradicional de seu interesse.

Esse padrão de comportamento, contudo, não é exclusividade dos Estados Unidos. Washington atua no Caribe e na América Latina de forma semelhante ao que Pequim faz no Sudeste Asiático e ao que Moscou reivindica em seu chamado “exterior próximo”. A China pressiona Taiwan, disputa o Mar do Sul da China e busca assegurar rotas comerciais e energéticas vitais. A Rússia, por sua vez, considera inaceitável a presença de forças hostis em países que integraram a antiga União Soviética, como demonstrado no conflito da Ucrânia. Em todos os casos, prevalece a mesma lógica: grandes potências raramente toleram instabilidade ou alinhamentos adversos em suas fronteiras estratégicas.

A riqueza energética da Venezuela, sua posição geográfica e fragilidade institucional transformaram o país em objeto de disputa, enquanto o próprio regime perdeu capacidade de conduzir uma transição interna legítima. Esse contexto reacende um dilema clássico da política internacional: até que ponto a soberania de um país pode ser relativizada em nome de interesses geopolíticos ou da defesa da democracia?

Entre Chávez e Maduro, a Venezuela passou de um projeto populista com legitimidade social para um regime autoritário em colapso econômico. Nesse ambiente, os Estados Unidos — à semelhança da China e da Rússia — consolidaram sua lógica de controle sobre uma suposta zona de influência.