As redes sociais humanas são frequentemente associadas à disseminação de boatos, imagens manipuladas e informações falsas. Embora esse cenário pareça característico da era digital, um novo estudo científico indica que a desinformação é muito mais antiga e faz parte da comunicação entre diferentes formas de vida na Terra.
Um artigo publicado na revista Interface na quarta-feira (10), por biólogos da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, sustenta que a desinformação não surgiu com os seres humanos. De acordo com os autores, sinais enganosos são uma propriedade inerente aos sistemas biológicos de comunicação e podem ser observados em bactérias, aves e também em grupos humanos.
A equipe realizou uma ampla revisão de estudos, analisando décadas de pesquisas para compreender como informações falsas ou imprecisas circulam na natureza. Os resultados mostram que a comunicação social está sempre acompanhada de algum grau de engano e que, em muitos casos, a mentira é transmitida de forma intencional. Segundo os pesquisadores, a desinformação socialmente transmitida deve ser entendida como uma característica onipresente da comunicação biológica e como parte fundamental dos sistemas sociais, ecológicos e evolutivos, e não como uma anomalia isolada.
Um dos exemplos mais detalhados no estudo envolve o chapim-real (Parus major). Essa ave apresenta altos índices de sinais enganosos: cerca de dois terços dos alarmes emitidos em áreas de alimentação são falsos. Parte desses alertas ocorre por erro, como quando o animal reage ao movimento de uma folha acreditando se tratar de um predador. No entanto, há evidências de que alguns alarmes são emitidos deliberadamente para afastar outros indivíduos e garantir acesso exclusivo a recursos alimentares.

Mesmo diante da alta frequência de alarmes falsos, os chapins-reais continuam respondendo a esses sinais. Para os pesquisadores, isso ocorre porque ignorar um alerta verdadeiro pode resultar em morte por predação, e a decisão precisa ser tomada rapidamente. Indivíduos que emitem sinais enganosos podem obter benefícios diretos, como acesso facilitado a comida ou parceiros, ao provocar a fuga do grupo.
O estudo também destaca que a eficácia da mentira depende de sua frequência. Alarmes falsos tendem a funcionar melhor quando são raros. Quando o engano se torna comum, os demais membros do grupo passam a ignorar os sinais daquele indivíduo específico.
A desinformação não se restringe às aves. Em bactérias, por exemplo, sinais químicos são usados para coordenar defesas coletivas, mas alguns indivíduos podem emitir esses sinais de forma antecipada, levando os demais a produzir defesas fora de hora. Há ainda registros de populações de baleias e golfinhos que seguem rotas migratórias desatualizadas por confiar na liderança de representantes de uma tradição coletiva, o que pode expô-los a maiores riscos.
Após estabelecer um modelo teórico sobre a desinformação na natureza, os pesquisadores pretendem investigar os impactos práticos desse fenômeno na coesão ou separação de grupos. Os autores sugerem que princípios semelhantes podem atuar tanto em cardumes quanto em plataformas digitais, onde indivíduos tendem a acreditar mais em quem transmite a informação do que em sua veracidade. Segundo o estudo, compreender os limites biológicos da comunicação pode inspirar estratégias humanas mais eficazes para o controle de boatos.
Com informações do Metrópoles








