Formiga

Lula chama sua base congressual de ?queijo suíço?

Ao tratar da guerra parlamentar que se formou em torno da emenda da CPMF, Lula oscila do otimismo desbragado à preocupação desmedida. Na quarta-feira (15), o presidente teve duas conversas ao pé de ouvido sobre o tema. Numa delas, com um auxiliar direto, revelou-se agoniado para ?fechar os buracos? abertos em seu consórcio partidário ?um ?queijo suíço?, segundo suas palavras. Noutra, com um senador de suas relações, Lula mostrou-se confiante no ?bom senso? dos senadores.
O governo detectou 14 votos cambaleantes em sua tropa de 53 aliados. Desse total, oito são considerados mais problemáticos que os demais. Limitando-se a oito, as defecções constituem um problema: na bica de enfrentar no Senado uma votação em que precisa de pelo menos 49 votos, o Planalto disporia, noves fora as pescaria que pretende fazer na oposição, apenas de 45. Estendendo-se a 13, as deserções acomodariam o governo na vizinhança de um desastre: teria de buscar na tropa inimiga pelo menos nove votos.
Eis aqui os oito senadores que mais apoquentam os operadores políticos de Lula: 1) Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), 2) Mão Santa (PMDB-PI), 3) Pedro Simon (PMDB-RS), 4) Expedito Júnior (PMDB-RO), 5) Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR), 6) Flávio Arns (PT-PR), 7) Patrícia Sabóia (PDT-CE) e 8) César Borges (PR-BA). São vistos como casos perdidos (Jarbas, Mão Santa e Simon), como empreitadas caras (Mozarildo e Expedito), como votos complicados de virar (Arns e Patrícia) e como problemas que fugiram ao controle do governo (César Borges).
Agora, os seis ?aliados? que freqüentam a lista do Planalto na condição de votos que inspiram cuidados: 1) Jefferson Peres (PDT-AM), 2) Osmar Dias (PDT-PR), 3) Cristovam Buarque (PDT-DF), 4) Sérgio Zambiasi (PTB-RS), 5) Geraldo Mesquita (PMDB-AC) e 6) Romeu Tuma (PTB-SP). A bancada do PDT, que o governo imaginava fechada com a CPMF, passou a rugir em timbre destoante. Zambiasi, Mesquita e Tuma fazem um ziguezague que inquieta o governo.
Com pressa, o governo decidiu agir em várias frentes. Aos senadores sensíveis aos apelos da fisiologia, oferecerá verbas e cargos. Aos programáticos, tentará levar no gogó. Pelas beiradas, vai trabalhar para convencer os governadores a exercerem pressão sobre os senadores de seus respectivos Estados, sejam eles governistas ou da oposição. Para Lula, é inconcebível que um governo como o dele, ?ajustado? e ?popular? não consiga arrancar do Senado a aprovação de uma emenda que todos sabem ?indispensável?.
O presidente e seus assessores mais chegados fazem uma autocrítica. Acham que jogaram demasiadas fichas na frustrada negociação com o PSDB, açulando animosidades nas legendas associadas à coalizão governista e descuidando de casos específicos. No rol dos enciumados, o Planalto inclui o PDT. No grupo dos descuidados, arrola, por exemplo, César Borges e Romeu Tuma, dois senadores egressos do DEM.
Lula foi informado, nesta quarta-feira, de um boato que já ganhou os corredores do Senado: estariam avançadas as negociações de César Borges com sua antiga legenda. O senador trocaria a rejeição à CPMF pelo amolecimento da disposição do DEM em exigir da Justiça Eleitoral a punição de sua infidelidade. Romeu Tuma, um caso análogo, surpreendeu o governo ao solidarizar-se nesta quarta, em aparte no plenário do Senado, com a colega Kátia Abreu (DEM-TO), que tivera seu relatório, contrário à CPMF, rejeitado pela comissão de Justiça na véspera.
O Planalto surpreendeu-se também com a súbita entrada em cena do deputado cassado Roberto Jefferson (RJ). Presidente do PTB, Jefferson convocou para o dia 28 de novembro uma reunião da Executiva do partido. Confidenciou a pelo menos dois interlocutores que trama o fechamento de questão do governista PTB contra a CPMF. Os senadores Mozarildo Cavalcanti e Sérgio Zambiasi são membros da Executiva do PTB. Prevalecendo a intenção de Jefferson, passariam a dispor de respaldo partidário para cravar no painel eletrônico do Senado o voto contra o imposto do cheque.
Lula passou a cobrar de seus ministros partidários ?Walfrido dos Mares Guia (PTB), Carlos Lupi (PDT) e Alfredo Nascimento (PR)?a restauração da fidelidade das respectivas legendas ao governo que os acomodou na Esplanada. A Mares Guia delegou, além da costura interna no PTB, o contato com os governadores. A Lupi encomendou, por meio de um auxiliar, o engajamento da bancada pedetista. A Nascimento, requisitou a virada do voto de Expedito Filho e a cooptação de pelos menos dois senadores filiados ao DEM: Jayme Campos (MT) e Jonas Pinheiro (MT), ambos muito afeitos ao DNIT, órgão que cuida da restauração de rodovias.
Lula se auto-incumbiu a tarefa de chamar os governadores à responsabilidade. Em privado, diz que o fim da CPMF significará a redução dos repasses de verbas federais aos Estados. Em público, começou a alardear o que considera uma obviedade. Pela manhã, em entrevista, realçou a ?contradição? da bancada de senadores do PSDB, que ameaça rejeitar uma CPMF que todos os governadores tucanos querem ver aprovada. À noite, na abertura da 13ª Conferência Nacional da Saúde, disse que os adversários da CPMF terão de arcar com as conseqüências da eventual rejeição do tributo.
Com esse tipo de pregação, o presidente mira em especial os governadores tucanos José Serra (São Paulo), Aécio Neves (Minas Gerais), Teotônio Vilela Filho (Alagoas), Cassio Cunha Lima (Paraíba) e Yeda Crusius (Rio Grande do Sul). De Serra espera que aja pelo alto, conversando com a cúpula do tucanato. De Aécio conta com a conquista do voto do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). De Teotônio anseia pela virada do voto de João Tenório (PSDB-AL). De Cunha Lima aguarda pelo convencimento de Cícero Lucena (PSDB-PB). De Yeda, quer auxílio para tentar amaciar os votos de senadores gaúchos como Simon e Zambiasi.
Líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM) desdenha da tentativa do Planalto de cooptar votos tucanos no varejo. Afirma que a tática do governo, longe de dividir o tucanato, ajuda a soldar a convicção da bancada contra a CPMF. Diz que nem o governo erra ao apostar que o PSDB é um partido com donos. Sustenta que nem a bancada é suscetível a pressões externas nem os governadores se animariam a exigir este ou aquele comportamento dos senadores. Eles já passaram pelo Congresso. Alguns foram líderes de bancada. Sabem como funciona a lógica do Parlamento, diz.