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Finanças na era digital: do cofrinho à tela do celular

Foto: UN

Havia um tempo em que as pessoas separavam as moedas e as depositavam em cofres de papelão ou em um porquinho de cerâmica. Outra forma era ter uma conta de poupança no banco. As dívidas eram encaradas com desconfiança.

A digitalização das finanças mudou a relação do brasileiro com o dinheiro. Sem a experiência sensorial do dinheiro, o consumidor passou a ter uma percepção distorcida dos seus gastos. De forma fácil e veloz, o consumidor dá um clique no aplicativo para chamar o transporte por aplicativo, outro para comprar um produto, outro para aceitar um crédito pré-aprovado e outro para fazer uma aposta online.

Até a contratação de empréstimos, antes um processo burocrático que exigia ida ao banco, documentos e aprovação presencial, transformou-se em uma operação de segundos, disponível online e 24 horas por dia.

O resultado do acesso fácil a produtos e serviços aparece no crescente endividamento das famílias brasileiras.

É nesse cenário que o governo federal lançou, no dia 4 de maio, o programa “Novo Desenrola Brasil”, o segundo em menos de três anos, com descontos de até 90% sobre dívidas atrasadas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal.

Este é um programa de renegociação de dívidas, financiado com recursos públicos e com descontos que chegam a 90%. Infelizmente, a conta do endividamento irresponsável, tanto do consumidor que comprou sem ter condições quanto da empresa que vendeu sabendo disso, é socializada e paga com dinheiro público.

Há dois lados nessa equação que merecem análise.

O primeiro é o consumidor sem educação financeira e explorado por empresas e instituições financeiras que desenvolveram ferramentas poderosas para estimular o consumo impulsivo e a contratação de crédito.

O segundo lado é o das empresas que utilizam algoritmos para identificar consumidores propícios ao consumo, oferecer crédito pré-aprovado, aumentar limites de cartão e empurrar produtos e serviços para pessoas sem real capacidade de pagamento.

A pergunta que precisa ser feita é: por que as empresas não fazem, com igual rigor, a análise da capacidade de pagamento antes da concessão do crédito? A resposta é simples: a inadimplência futura do consumidor não prejudica tanto a empresa, que tem a certeza de que o Estado intervirá para renegociar as dívidas, garantir a recuperação de parte dos valores e liberar o consumidor para voltar a comprar.

Enfrentar o endividamento com profundidade exige atacar dois pontos centrais. O primeiro é tornar a educação financeira uma política pública permanente, obrigatória e universal. O segundo é exigir das empresas de crédito e consumo melhor análise na concessão de crédito.

O velho cofrinho de cerâmica talvez não volte, mas a lição que ele ensinava — a de que dinheiro tem peso, tem limite e precisa ser guardado — nunca foi tão urgente quanto agora. No mundo digital, a ausência desse peso físico precisa ser compensada por conhecimento, regulação e responsabilidade compartilhada.

Euler Antônio Vespúcio