Os trabalhadores por conta própria registraram as maiores jornadas semanais de trabalho no Brasil no primeiro trimestre de 2026, com média de 45 horas por semana. O número supera em mais de cinco horas a carga horária média dos empregados do setor público e da iniciativa privada.
Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Trimestral, divulgada nesta quinta-feira (14) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento considera pessoas com 14 anos ou mais e analisa todas as formas de ocupação, incluindo trabalhadores com e sem carteira assinada, temporários e autônomos.
Segundo a pesquisa, a média geral de jornada entre os ocupados foi de 39,2 horas semanais. Entre os empregados, a média chegou a 39,6 horas, enquanto os empregadores registraram média de 37,6 horas por semana.
Já os trabalhadores classificados como “conta própria” apresentaram a maior carga horária do país, com média de 45 horas semanais.
O IBGE define trabalhador por conta própria como a pessoa que atua em seu próprio empreendimento, sozinha ou com sócio, sem empregados e podendo contar ou não com ajuda não remunerada de membros da família.
De acordo com o instituto, o Brasil possui 25,9 milhões de trabalhadores por conta própria, número que representa 25,5% da população ocupada no primeiro trimestre de 2026. Entre os exemplos mais comuns dessa categoria estão motoristas e entregadores por aplicativo.
O levantamento também apresenta dados sobre os chamados “trabalhadores auxiliares familiares”, categoria formada por pessoas que ajudam familiares em negócios, atividades agrícolas, comércios ou outras funções sem receber remuneração em dinheiro.
Nesse grupo, a jornada média registrada foi de 28,8 horas semanais no período analisado.
O analista da pesquisa, William Kratochwill, destacou que os trabalhadores classificados como empregados tendem a não ultrapassar os limites máximos de jornada devido às proteções previstas na legislação trabalhista.
A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) determina jornada máxima semanal de 44 horas, limitada a oito horas diárias, com possibilidade de até duas horas extras por dia. Há exceções, como a escala de 12 horas de trabalho por 36 horas de descanso, comum entre profissionais da saúde.
Segundo Kratochwill, mesmo trabalhadores sem formalização costumam seguir o padrão previsto na legislação.
“Mesmo que o trabalhador não seja formalizado, há uma tendência do mercado de seguir o padrão da lei”, afirmou.
O analista ressaltou que a realidade é diferente para trabalhadores por conta própria e empregadores. No caso dos empregadores, a possibilidade de delegar tarefas ajuda a explicar a média menor de horas trabalhadas.
“Tem pessoas que trabalham para ele. Talvez seja isso que estabeleça uma média de horas trabalhadas inferior à do empregado”, explicou.
Já os trabalhadores autônomos acabam assumindo todas as atividades do negócio.
“Como não tem a quem delegar, provavelmente tem que trabalhar muito mais horas por semana para alcançar seus objetivos”, concluiu Kratochwill.
A divulgação dos dados ocorre em meio ao debate nacional sobre a redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas e o fim da escala 6×1, modelo em que o trabalhador possui apenas uma folga semanal, sem redução salarial.
Atualmente, tramitam no Congresso Nacional duas propostas de emenda à Constituição (PEC) e um projeto de lei apresentado pelo governo sobre o tema.
Na última quarta-feira (13), representantes do governo federal e da Câmara dos Deputados chegaram a um acordo para aprovar propostas em tramitação na Casa que estabelecem a escala 5×2.
Os dados do IBGE mostram que os trabalhadores por conta própria seguem liderando as maiores jornadas semanais do país, cenário associado à ausência de limites formais de carga horária e à necessidade de assumir integralmente as atividades profissionais. Ao mesmo tempo, a discussão sobre redução da jornada e mudanças nas escalas de trabalho avança no Congresso Nacional e amplia o debate sobre condições de trabalho no Brasil.
Com informações da Agência Brasil







