Os dados oficiais do governo de Minas Gerais apontam uma redução de 2,3% nos homicídios no estado entre 2023 e 2024, passando de 2.795 para 2.731 casos. Entretanto, quando são considerados os chamados “homicídios ocultos” — mortes violentas registradas apenas como de “causa indeterminada” — o cenário muda significativamente. Segundo o Atlas da Violência, estudo elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta terça-feira (26), o número real de assassinatos em Minas subiu 25,2% no período, alcançando 3.949 casos.
O levantamento revela que 1.218 mortes violentas deixaram de ser contabilizadas oficialmente como homicídios em Minas Gerais durante 2024. Com a inclusão desses casos, o estado passa a liderar o ranking nacional de aumento de assassinatos entre 2023 e 2024.
Na sequência aparecem Ceará, com alta de 23,8%; São Paulo, com 10,3%; Maranhão, com 7,8%; e Alagoas, com 3,6%.
O estudo também destaca que, ao longo de dez anos, Minas Gerais manteve fora das estatísticas oficiais 5.448 mortes violentas classificadas como homicídios ocultos.
Na capital mineira, Belo Horizonte, foram registrados 441 homicídios ocultos em 2024. O número é quase o dobro dos 235 homicídios oficialmente registrados no mesmo período.
Os dados reforçam a preocupação de especialistas sobre a subnotificação da violência letal e os impactos dessa distorção na formulação de políticas públicas de segurança.
O problema não se restringe a Minas Gerais. Em todo o Brasil, o número de homicídios consumados que não entraram nas estatísticas oficiais cresceu 88% em 2024, chegando a pouco mais de 7 mil casos, quase o dobro dos 3.755 estimados no ano anterior.
Pesquisadores responsáveis pelo Atlas da Violência alertam que a aparente redução da violência letal no país pode estar sendo influenciada pela piora na qualidade dos registros de mortes violentas.
“Em síntese, os dados de 2024 sugerem que a leitura da dinâmica da violência letal no Brasil exige cautela. A aparente continuidade da queda na série oficial não se reproduziu integralmente quando se incorporam os homicídios ocultos. O resultado é uma fotografia mais preocupante do que a sugerida pelos registros brutos”, destacam os especialistas no estudo.
O relatório cita especialmente estados como São Paulo, Minas Gerais, Ceará e Rio de Janeiro, onde a subnotificação passou a ter peso relevante na interpretação recente dos índices de violência.
Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registrou oficialmente 42.590 homicídios em 2024, o equivalente a uma taxa de 20,1 homicídios por 100 mil habitantes. O indicador mantém a tendência de queda observada desde 2018.
No entanto, os pesquisadores do Atlas afirmam que parte dessa redução está relacionada ao aumento das Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI). Em 2024, houve crescimento de 23,8% nesses registros, o que representa 3.311 casos a mais em relação ao ano anterior.
Os homicídios ocultos responderam por 14,3% dos assassinatos registrados no Brasil em 2024. Entre 2014 e 2024, o país acumulou aproximadamente 55.212 homicídios ocultos.
Os dados do Atlas da Violência indicam que a análise da criminalidade no Brasil exige cautela diante do aumento das mortes violentas classificadas como causa indeterminada. Em Minas Gerais, a inclusão dos homicídios ocultos altera completamente o panorama apresentado pelos números oficiais, colocando o estado no topo do crescimento de assassinatos no país entre 2023 e 2024. O governo de Minas Gerais foi questionado sobre os dados, e a reportagem será atualizada assim que houver resposta oficial.
Com informações do O Tempo








