Política

Vorcaro cita pagamento de R$ 30 milhões ligado a documentário sobre Lula, mas PF aponta falta de provas

Foto: Revista Oeste/Paulo Pinto/Agência Brasil

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro teria relatado negociações com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto envolvendo pagamentos em troca de acesso aos fundos de pensão de servidores federais. Segundo reportagem da revista Veja, mensagens e documentos indicariam que Vorcaro teria pagado R$ 30 milhões em dinheiro vivo ao Instituto Lula, administrado por Paulo Okamotto, para financiar despesas de um documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva gravado no exterior. A Polícia Federal (PF), porém, considerou que as informações apresentadas não tinham elementos mínimos para conferir credibilidade à proposta de delação premiada.

Proposta de delação foi rejeitada por falta de provas

De acordo com informações publicadas pela Veja e repercutidas pela CNN, Vorcaro detalhou as supostas negociações em um anexo encaminhado à Procuradoria-Geral da República (PGR). O documento teria sido apresentado em junho, durante a segunda tentativa do ex-banqueiro de firmar um acordo de colaboração premiada, que acabou descartado.

Integrantes da Polícia Federal informaram à CNN que o órgão recusou a delação por entender que não havia elementos mínimos capazes de sustentar os relatos apresentados. Segundo essas fontes, a PGR chegou à mesma conclusão e não deu prosseguimento ao caso.

A defesa de Vorcaro teria argumentado que dispunha de mensagens, registros das pessoas que retiraram o dinheiro em espécie e informações sobre os locais utilizados pelos operadores para realizar as entregas dos valores.

Uma fonte da PGR ouvida reservadamente pela CNN afirmou, entretanto, que o áudio atribuído a Vorcaro na reportagem não foi encaminhado à equipe responsável pelas negociações de delação na instituição. Também existe a suspeita de que a gravação tenha sido feita depois do fracasso das tratativas.

Segundo a mesma fonte, os relatos apresentados pelos advogados eram esquemáticos e redigidos em terceira pessoa, diferentemente das declarações em primeira pessoa reproduzidas na reportagem. A fonte também afirmou que expressões como “mordidas” e “caciques” não faziam parte do vocabulário utilizado durante as negociações.

Aproximação com o PT teria sido articulada por Augusto Lima

Conforme a reportagem da Veja, a aproximação de Vorcaro com integrantes do PT teria sido articulada por Augusto Lima, então CEO do Banco Master e sócio do ex-banqueiro. O primeiro encontro com João Vaccari Neto teria sido intermediado pelo senador Jaques Wagner (PT-BA), que, à época, era líder do governo Lula no Senado.

No relato atribuído a Vorcaro, a negociação teria envolvido a liberação de acesso aos fundos de pensão do Banco do Brasil, da Caixa Asset e da Previ. Como contrapartida, teriam sido discutidos pagamentos por fora e repasses ao Instituto Lula.

Em trecho reproduzido pela revista, Vorcaro teria afirmado que Augusto Lima se reuniu com Vaccari por intermédio de lideranças do PT da Bahia. Segundo o relato, foi levantada a possibilidade de um pagamento em espécie de aproximadamente R$ 30 milhões para cobrir despesas de um documentário sobre Lula que estava sendo gravado no exterior, além de valores destinados ao Instituto Lula.

O ex-banqueiro também teria declarado que Vaccari exigiu uma taxa de 10% sobre os recursos que o Banco Master conseguisse captar junto aos fundos de previdência de servidores da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil, da Petrobras e dos Correios.

A estimativa apresentada na negociação seria de R$ 1 bilhão destinado ao PT e R$ 9 bilhões ao Banco Master.

Áudio menciona pagamentos ao Instituto Lula e ao documentário

A reportagem também apresentou um áudio atribuído a Vorcaro no qual ele supostamente comenta a negociação com Vaccari e os repasses ao Instituto Lula.

Na gravação, o ex-banqueiro teria afirmado que a operação com o Banco do Brasil havia sido estruturada com Vaccari e que Augusto Lima adiantaria recursos a Paulo Okamotto, além de mencionar dinheiro para o filme sobre Lula. Até o momento, não está claro quando o áudio foi gravado.

Em outro trecho atribuído a Vorcaro, ele teria comparado os recursos destinados ao documentário sobre Lula com o patrocínio do filme Dark Horse, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, que também recebeu recursos do Banco Master.

Segundo a declaração reproduzida pela revista, Vorcaro teria dito que o valor destinado ao filme sobre Lula poderia ter sido até maior que o empregado na produção sobre Bolsonaro. Ele teria diferenciado as duas operações ao afirmar que o dinheiro relacionado ao documentário sobre Lula teria sido repassado “por fora”, enquanto o financiamento de Dark Horse teria ocorrido por meio de patrocínio formal.

A diferença entre as modalidades de repasse foi mencionada pelo próprio Vorcaro no áudio atribuído a ele, mas a data e as circunstâncias da gravação não foram esclarecidas.

Documentário citado é produção de Oliver Stone

O filme mencionado nos relatos seria o documentário Lula, dirigido por Oliver Stone. A produção contou com depoimentos de amigos e aliados do presidente, entre eles o advogado Walfrido Warde.

Além do documentário, a reportagem relaciona as negociações a outros financiamentos envolvendo o Banco Master, incluindo o patrocínio de Dark Horse, produção sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.

As informações sobre os supostos repasses e as negociações com os fundos de pensão integram os relatos que Vorcaro teria apresentado na tentativa de obter um acordo de colaboração premiada. Até o momento, porém, as propostas não resultaram em um acordo aprovado pelas autoridades. O ex-banqueiro já teve duas propostas de delação rejeitadas.

Lula e Padilha negam envolvimento

Procurada pela CNN, a assessoria do Palácio do Planalto, o Instituto Lula e a campanha do presidente foram questionados sobre o assunto. A reportagem também buscou posicionamento da assessoria de Padilha.

Olavo Noleto informou que não se manifestaria. A CNN afirmou que o espaço permanece aberto para manifestações e que tentava contato com João Vaccari Neto, Walfrido dos Mares Guia e Paulo Okamotto.

Em resposta à Veja, Lula negou ter solicitado ou recebido qualquer vantagem financeira relacionada ao caso. O presidente também afirmou que não autorizou terceiros a receber recursos de Vorcaro em seu nome.

Padilha, por sua vez, negou ter relação com o ex-banqueiro.

Com informações da CNN Brasil