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10 Coisas que eu Odeio em Você: Heath Ledger, Julia Stiles e a comédia romântica que Shakespeare nunca imaginou

Foto: Reprodução/Redes Sociais

O filme 10 coisas que eu odeio em você, lançado em 1999 e dirigido por Gil Junger, é uma das adaptações de Shakespeare para o ambiente do colégio americano mais bem avaliadas da história do cinema teen americano, transformando A Megera Domada numa comédia romântica de alta escola em Seattle com uma precisão de adaptação que preservou as dinâmicas de poder do original enquanto as atualizava para um contexto que o público de 1999 reconhecia como o seu. O filme se tornou um objeto de culto para uma geração e continua sendo descoberto por novas audiências que chegam a ele com um contexto muito diferente do que o lançamento original oferecia.

A adaptação de A Megera Domada para os anos 90

A Megera Domada de Shakespeare é um dos textos mais problemáticos do cânone do dramaturgo para o espectador contemporâneo, com uma narrativa central de domesticação de uma mulher independente por um homem determinado a controlá-la que cria desconforto em qualquer leitura que não seja historicamente contextualizada. A adaptação de 10 Coisas que eu Odeio em Você resolveu esse problema com uma inteligência específica, em vez de domesticar Kat Stratford, o filme usa a estrutura da peça para criar uma história onde o que muda ao longo da narrativa é a capacidade de Patrick de ver genuinamente quem Kat é, em vez da disposição de Kat de se conformar ao que Patrick quer que ela seja.

Essa inversão sutil mas fundamental do argumento central de Shakespeare é o que torna 10 Coisas que eu Odeio em Você uma adaptação genuinamente bem-sucedida em vez de uma que apenas usa o texto como ponto de partida superficial.

Heath Ledger tinha dezenove anos quando filmou 10 Coisas que eu Odeio em Você, e estava longe de ser o ator com o perfil que Brokeback Mountain, Cavaleiro das Trevas e a morte precoce em 2008 criaram retrospectivamente para a sua carreira. Patrick Verona foi o papel que o revelou ao público americano, com o ator australiano criando um personagem que era ao mesmo tempo o tipo de bad boy que a estética do colégio americano dos anos 90 havia codificado e algo muito mais específico e mais interessante do que essa categorização sugere.

Julia Stiles como a Kat Stratford que a década merecia

Julia Stiles como Kat Stratford é o coração do filme, com uma atriz que estava construindo uma carreira em adaptações de Shakespeare para contextos contemporâneos criando uma versão da Catarina que é feminista de uma forma específica de 1999, intelectualmente arrogante, sarcasticamente defensiva e genuinamente furiosa com as formas pelas quais o ambiente de colégio americano penalizava as meninas por terem opiniões e por recusar a conformidade social.

A trilha sonora e o rock alternativo de 1999

A trilha de 10 Coisas que Eu Odeio em Você funciona como cápsula do tempo do rock alternativo do final dos anos 90, com Letters to Cleo, Save Ferris e Semisonic representando um momento específico da música americana. A versão de Letters to Cleo para I Want You to Want Me e a de Cruel to Be Kind aparecem em cenas-chave do filme.

A banda Letters to Cleo aparece fisicamente no filme tocando no telhado durante os créditos, um cameo que se tornou parte da identidade do produto e que os fãs citam entre os detalhes mais memoráveis.

Gil Junger vinha da televisão, tendo dirigido episódios de Ellen e de outras sitcoms, e 10 Coisas foi seu primeiro longa. Essa formação explica o ritmo do filme, que privilegia diálogo rápido e reação de elenco sobre construção visual elaborada, uma abordagem que serve perfeitamente ao material.
Junger retornou à televisão depois de alguns filmes com recepção limitada, e 10 Coisas permanece como seu trabalho mais lembrado e mais influente.

A escola e a arquitetura de castelo

A Stadium High School de Tacoma, onde o filme foi rodado, é uma construção de 1906 originalmente projetada como hotel de luxo, com torres e uma fachada que remete a castelos franceses. Essa arquitetura inesperada dá ao filme uma identidade visual que o separa das comédias adolescentes ambientadas em prédios escolares genéricos.

A escola tornou-se destino turístico para fãs do filme, com visitantes de várias partes do mundo procurando as locações específicas onde as cenas mais famosas foram filmadas.

A cena onde Patrick canta Você é Tão Lindo para Kat nos degraus do campo de futebol da escola, com a banda marcial do colégio como acompanhamento improvisado, é o momento que os espectadores citam mais frequentemente como o que os conquistou definitivamente, e é uma das melhores cenas de romance de comédia do cinema americano dos anos 90. Ledger entregou a cena com uma mistura de espalhafato e vulnerabilidade que tornava o gesto simultaneamente ridículo e genuinamente emocionante, e a reação de Stiles foi calibrada para refletir o estado interno de Kat com uma precisão que tornava o momento de rendição credível.

A solução que o roteiro encontrou para o problema central de A Megera Domada foi transformar a independência de Kat Stratford em algo que o filme valoriza em vez de corrigir, com o arco da personagem sendo sobre aprender a confiar em alguém sem abandonar quem ela é. Heath Ledger tinha vinte anos e era praticamente desconhecido fora da Austrália quando foi escalado como Patrick Verona, e a cena em que canta pelo sistema de som do estádio enquanto foge dos seguranças é uma das mais lembradas da comédia romântica dos anos 90, executada com um carisma que explicava por que ele se tornaria uma das figuras mais importantes de sua geração.

O filme permanece como o exemplo mais bem-sucedido da onda de adaptações literárias para o contexto adolescente que o final dos anos 90 produziu, e é o único daquela safra que continua sendo recomendado sem ressalvas mais de duas décadas depois.

 

Autor: Nicolas Ruiz