Pequenos, mas capazes de viver por décadas, alguns morcegos desafiam um padrão comum entre os mamíferos, segundo o qual animais menores tendem a apresentar vidas mais curtas. Um estudo publicado em agosto na revista Nature encontrou no DNA de espécies do gênero Myotis pistas que podem ajudar a explicar essa longevidade e sua possível relação com mecanismos de defesa contra vírus e câncer.
A pesquisa analisou espécies que, apesar de apresentarem tamanhos relativamente semelhantes, possuem diferenças expressivas na expectativa de vida. O Myotis nigricans, por exemplo, pode viver cerca de sete anos, enquanto o Myotis brandtii chega a 42 anos — uma diferença de aproximadamente seis vezes.
Para investigar as causas dessa variação, os cientistas produziram genomas quase completos de oito espécies de Myotis. A análise buscou identificar adaptações genéticas relacionadas à longevidade, ao funcionamento do sistema imunológico e à resistência a doenças.
Os pesquisadores encontraram sinais de seleção positiva em genes associados à longevidade e a processos relacionados ao câncer. A seleção positiva ocorre quando determinadas características genéticas consideradas vantajosas são favorecidas ao longo da evolução e passam a ser mais frequentes em uma população.
O estudo também identificou uma relação entre genes ligados à longevidade e genes envolvidos na interação com vírus. Para os autores, adaptações desenvolvidas pelos morcegos ao longo da evolução para enfrentar infecções podem ter produzido benefícios adicionais, incluindo mecanismos relacionados à manutenção das células e à resistência ao câncer.
A resposta dos morcegos aos vírus apresentou diferenças de acordo com o tipo de agente infeccioso. Proteínas que interagem com vírus de DNA mostraram fortes sinais de seleção positiva, enquanto proteínas relacionadas aos vírus de RNA apresentaram maior variação no número de cópias dos genes.
Entre os mecanismos analisados está o PKR, uma proteína importante para a defesa antiviral. A equipe identificou duplicações antigas relacionadas ao gene responsável pela produção dessa proteína, indicando uma longa história de adaptação do sistema imunológico dos morcegos.
Os resultados levantam a possibilidade de que características selecionadas para melhorar a resposta às infecções também tenham contribuído para outras funções importantes do organismo.
Os cientistas também realizaram experimentos com células do Myotis lucifugus, uma espécie de morcego longeva, para observar como elas reagiam a danos no DNA.
Em vez de aumentar principalmente a atividade dos genes responsáveis pelo reparo do DNA, as células apresentaram maior ativação de mecanismos associados à morte celular.
Esse mecanismo pode ser importante para impedir que células gravemente danificadas continuem acumulando alterações e se multiplicando. A proliferação de células com alterações está relacionada ao desenvolvimento do câncer.
O resultado reforça a hipótese de que a longevidade dos morcegos pode estar relacionada não apenas à capacidade de lidar com infecções, mas também à forma como o organismo controla células danificadas.
Os pesquisadores ressaltam que os resultados não indicam a existência de um único “gene da longevidade” e que os mecanismos identificados não podem ser aplicados diretamente aos seres humanos.
O objetivo do trabalho foi compreender como diferentes características evoluíram em animais que conseguem viver muito mais do que seria esperado considerando seu tamanho.
Segundo os autores, longevidade e imunidade podem estar conectadas por adaptações capazes de oferecer mais de um benefício ao organismo. Uma alteração genética favorecida pela proteção contra vírus, por exemplo, também pode contribuir para o controle das células e para a resistência a doenças relacionadas ao envelhecimento.
Com informações do Metrópoles






