Infelizmente somos obrigados a admitir esta triste realidade. Parece mesmo que este é o sentimento reinante lá na cúpula dos que decidem sobre o multiuso de nossas águas. Assim pensam, os milhões de mineiros que à duras penas, ainda sobrevivem nesta vasta e antes progressista região que cedeu milhares de km2 de terras agricultáveis ou que serviam de suporte para a criação de gado, para que elas pudessem ser alagadas.

 Sem isso, na década de 60, o mineiro JK jamais conseguiria colocar em prática, seu sonho de numa visão mais que futurista, criar as condições necessárias para que, através da produção de energia, o país em sua totalidade, iniciasse o processo de industrialização. Foi a partir daí que tudo mudou e virou sinônimo de progresso, da criação de emprego, do aumento de renda e, como consequência, facilitou a elevação dos níveis que medem a ascensão social de seu povo, ainda que de forma incipiente.

Mas o custo de tudo isso para um grupo de mineiros foi enorme! Num primeiro momento eles conviveram com prejuízos econômicos, financeiros e sociais, além é claro, das muitas vidas que se perderam diante do desespero de assistirem a derrocada a eles imposta com a inundação de suas terras, as mais férteis.  As mesmas que há décadas ou até séculos, pertenceram àqueles seus ancestrais que tudo fizeram para construir e manter a duras penas, o meio de sobrevivência de várias gerações.

Com o tempo e se adaptando à nova condição, os mineiros foram se organizando, atraindo novos capitais e enquanto lhes foi permitido desfrutar do multiuso das águas, eles fizeram com que no entorno de Furnas e Peixoto, surgissem novos empreendimentos e assim, a bonança novamente se estabeleceu por aqui.

Mas como dizem, que o que é bom, dura pouco, mais uma vez nossas águas vão rolar como rolaram em 2012. E por razões mais que conhecidas, ou seja: pelo uso político! E o resultado foi a volta da incerteza, do caos econômico/financeiro/social, tudo a partir do esvaziamento criminoso e premeditado de Furnas.

No pano de fundo de outra crise vivida no início dos anos 2000, como também ocorre agora, em nome do interesse político, não o do povo, estava estampada a bandeira da privatização. Se não fosse a coragem, o patriotismo e o amor a este Estado, demonstrado por muitos de nós, liderados pelo saudoso Itamar Franco, já a partir dali, literalmente, “a vaca teria ido para o brejo”, já que na maioria dos municípios lindeiros de Furnas o brejão, o pântano se instalaram por muitos anos, em grande área daquilo que antes fora um lago.

Nos últimos dez anos, o mínimo que pode concluir quem conhece o drama imposto aos mineiros por uma meia dúzia que há décadas dita as regras para as vazões defluentes da nossa bacia – (ANA –ANEEL – ONS – Ministérios e outros) – é que estes caras são “loucos”.

Nosso lago tem sido esvaziado sem a menor cerimônia, sempre com a desculpa de que a água está sendo usada para a geração de energia. Mentira! Se assim fosse, as próprias estatísticas que eles mesmos publicam apresentariam números diferentes. Comparem as anotações de afluência, defluência, geração com os índices pluviométricos nos mesmos períodos e se estarreçam. E mais que isso, o olhar direto no leito do rio, em especial nas madrugadas é o que retrata a verdade e nos mostra o que de fato ocorre. É preciso atender os interesses da Hidrovia Tietê e outros mais ali na calha do Paraná, inclusive usinas privatizadas que hoje estão sobre o controle dos chineses.

São Pedro, coitado, cansado de ser colocado como grande vilão, desta vez abriu as torneiras nos céus e se aqueles “imbecis” pensassem um pouco mais, veriam que reservatório cheio é sinônimo de energia estocada, ou seja, garantia de que o país não correria como correu nos últimos anos, o risco de racionamento ou mesmo de sofrer um apagão.

Como explicar os dados que eles apresentam sobre afluência e defluência com quedas tão súbitas? Afinal de contas as tais bandeiras de escassez, continuam ou não bancando as termoelétricas. Por que o despachado por elas caiu tanto?

Engraçado que esta semana, lá no Sul, a barragem que atende a termelétrica Candiota III (RS) foi autorizada pela ANA a reduzir sua vazão para 187L/s, sob o argumento de se preservar o armazenamento de água do reservatório (resolução 117/2022). Lá no Sul, a ordem oficial é preservar, aqui eles escoam a água sem a menor cerimônia. Por que será?

Segundo se argumenta na mesma resolução, isto se deu sob a alegação de que municípios atingidos pelo reservatório, teriam decretado estado de emergência em razão da estiagem.

Saudades do Itamar! Será que ele, se aqui estivesse ocupando a cadeira do Palácio da Liberdade, não teria, corajosamente, também decretado calamidade pública no entorno de nosso lago, prevenindo e evitando os danos que certamente virão, se eles continuarem a sangrar nossas águas?

Outra dúvida que nos vem à cabeça se refere ao fato de nos vangloriarmos por termos aqui o MAIOR LAGO DE ÁGUA DOCE DO MUNDO e o estado de Minas, ainda assim, permite que até mesmo a sua Constituição seja desrespeitada só para satisfazer os interesses políticos de outras unidades da federação. Quem souber, por favor nos responda.

Tomara que estejamos equivocados em nossas previsões, mas, pelo andar da carruagem e sabendo que ela hoje, como há muitos anos, ainda é conduzida pelos mesmos cocheiros…

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