No encerramento de 2025, uma das histórias mais curiosas do Sul de Minas ganhou destaque nacional. Um vídeo publicado pelo g1 mostrando uma árvore que apita ao ser examinada com detector de metais alcançou quase 3 milhões de visualizações e reacendeu memórias sobre o passado escravocrata da região.
A paineira centenária está em um sítio no município de Cabo Verde, pertencente à família de Daniel Paiva Batista desde 1930. No local, há também um casarão de 1935, reformado para área de lazer. Segundo Batista, desde a adolescência ouvia relatos do tio e do avô sobre a árvore, que teria sido usada para castigo e venda de pessoas escravizadas.
De acordo com os relatos, escravizados considerados “folgados” eram amarrados com correntes ao tronco da árvore, localizada à beira de uma estrada. “Antigamente, quando comprava os escravos e tinha dois ou três, por exemplo, em um lote de 20, que não era bom de serviço, eles amarravam com corrente nessa paineira e quem passava por perto comprava mais barato, se quisesse”, contou Batista. Com o crescimento da árvore, a corrente teria sido incorporada ao tronco.
Indícios de que a história pode ser real
Pesquisadores da Unicamp e da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), integrantes do coletivo Memora, investigaram o caso. Ao passar o detector de metais pela árvore, o equipamento apitou em um ponto específico, indicando a presença de metal. A hipótese é que a paineira, hoje com tronco de três metros de diâmetro, tenha “engolido” a corrente ao longo do tempo.
“A gente não sabe, pode ser que seja um prego, pode ser que seja qualquer coisa, mas acho que essa marca oral de histórias que são repassadas de um período do escravismo é muito significativa”, afirmou a cientista social e doutoranda da Unicamp, Lidia Maria Reis Torres.
A bióloga Luciana Botezelli, professora da Unifal em Poços de Caldas, explicou que é comum árvores incorporarem objetos que se tornam obstáculos ao seu crescimento. “Muitas vezes, quando há o crescimento do tronco, se a árvore vai ficando muito apertada pelo material, ela passa a criar uma estrutura de envolvimento daquilo que está incomodando e retendo o crescimento dela”, disse.
Espaço de memória
Os pesquisadores estudam formas de aprofundar a investigação sem precisar abrir a árvore. Para o professor de História da Unifal, Luís Eduardo Oliveira, preservar o artefato dentro da paineira é fundamental. “A gente não deve tirar o artefato porque a árvore da maneira como está passa a ser um espaço de memória de Cabo Verde. Se tirar o artefato de lá, ela se torna só uma árvore e o artefato se torna só um objeto”, destacou.
A história, que mistura tradição oral e indícios científicos, reforça a importância da preservação da memória e da cultura local em Minas Gerais.
Com informações do G1 Sul de Minas







