Lilica é uma cadela cheia de energia e disposição. Quem é recebido pela cachorrinha de apenas 2 anos de idade se contagia com seu entusiasmo, nem desconfia que por trás daquela aparente felicidade está um animal, provavelmente, acometido pela triste doença chamada de leishmaniose viceral. Sua proprietária, Walkíria Savani da Cunha, que trabalha como cuidadora social, já providenciou o exame que detecta a doença e, para sua infelicidade, o veterinário desconfia que Lilica esteja realmente contaminada pelo mosquito vetor da leishmaniose, conhecido como mosquito-palha. O resultado definitivo estava previsto para sair nesta sexta-feira (10) e, se o teste for positivo, Walkíria não terá outra opção senão encaminhar seu querido animal de estimação para a eutanásia.
É só se aproximar de Lilica para observar os principais sintomas da doença: queda de pelos ao redor dos olhos, boca e nariz, descamação da pele na região do abdômen e secreção ocular excessiva.
Os problemas não param por aí, porque a cuidadora social tem mais três cachorros que podem também estar contaminados pelo mosquito transmissor da leishmaniose. Walkíria terá que submeter os outros animais à sorologia, um teste em que é retirado sangue para ser analisado. O valor cobrado nas clínicas veterinárias para esse tipo de exame é geralmente R$30, além do preço da consulta médica que pode variar em cada estabelecimento. A amostra de sangue é encaminhada para um laboratório em Belo Horizonte e o resultado fica pronto dentro de sete dias.
A situação parece crítica, pois na rua Antônio Carlos, no bairro Engenho de Serra, onde mora Walkíria, há pelo menos outros seis casos da doença. Inclusive, a vizinha da casa da frente perdeu seu animal de estimação há pouco tempo e está bastante deprimida. ?É muito doloroso isso. A gente leva o animal vivo para a clínica veterinária e sabe que não vai voltar com ele para casa?, lamentou a proprietária de Lilica.
O problema pode ficar ainda maior, pois na rua em questão quase todas as residências têm cachorros, de acordo com relatos de moradores. Alguns proprietários de cães vivem em condição precária, mal tem dinheiro para alimentar seus animais de estimação, que dirá pagar as vacinas que previnem a doença em até 80% no animal ainda não infectado. O valor do medicamento é alto e cada dose custa R$70, e são necessárias três aplicações a cada 21 dias, de acordo com o veterinário Euller Cristiano de Andrade.
O profissional fez um alerta e disse que é essencial prevenir a leishmaniose. Isso pode ser feito fazendo a limpeza de folhas e galhos caídos no quintal ou jardim, que em decomposição viram matéria orgânica, um atrativo para o mosquito-palha vetor da doença, que gosta de ficar em lugares úmidos e escuros. O inseto ataca nas primeiras horas do dia ou ao entardecer. Além disso, cultivar a planta citronela também pode evitar o aparecimento do mosquito, já que a erva é um repelente natural.
Euller de Andrade fez questão de esclarecer que a maioria dos cães não apresenta qualquer sintoma da doença e pode ficar infectada por vários anos sem ter sinais aparentes. A primeira atitude a ser tomada quando existe um surto da doença no município é providenciar o exame sorológico. E, mesmo assim, o veterinário ressalta que é preciso tomar muito cuidado, porque existem patologias que apresentam características semelhantes as da leishmaniose, como a doença do carrapato, dermatites ou quando a cadela está no estado de gestação. Nesses casos não é necessário fazer a eutanásia nos cães, já que existe cura para as doenças.
Um dos principais problemas decorrentes da infecção do mosquito-palha nos cães é que os animais infectados servem como hospedeiro e a fêmea do inseto pode picar também os humanos. A doença é grave e se não tratada pode levar à morte em até 90% dos casos.
O veterinário explicou que existe uma prevalência maior de infestação em cães do que em outros animais mamíferos como gatos e humanos. Segundo Euller de Andrade, não há casos de contaminação em felinos e o porquê da não-infestação continua sendo estudada pela comunidade científica. Além de prevenir os cães com a vacina, também é necessário o uso de repelentes para aumentar a proteção contra o mosquito transmissor.
Uma queixa dos defensores dos animais é a respeito da decisão do Ministério da Agricultura de proibir o tratamento em cães infectados pela doença, pois a medicação existente é para tratar pessoas doentes e ainda não existe um medicamento específico para o uso veterinário. A preocupação das autoridades da saúde é que o mosquito possa se fortalecer nos cães tratados e, com isso, tornar ineficaz o tratamento nos seres humanos.
A fim de avaliar a disseminação da leishmaniose no município, uma consulta foi realizada nos principais pet shops da cidade e a maioria disse que há casos suspeitos e confirmados da doença.
A Secretaria de Saúde em Formiga não disponibiliza o exame sorológico gratuitamente, segundo informou a coordenadora da Vigilância Sanitária, Fernanda Pinheiro Lima. De acordo com ela, o serviço gratuito só ocorre depois de realizada uma avaliação rigorosa acerca da vida do cão, como a análise dos principais sintomas da leishmaniose e se o ambiente onde vive o animal é propício para a proliferação do mosquito transmissor da doença.
Questionada sobre os crescentes casos de leishmaniose no município, Fernanda se mostrou surpresa com a notícia e disse que não tinha qualquer notificação registrada da doença. Segundo ela, de 2005 até o início deste ano, há 65 casos de leishmaniose. Ainda disse que é obrigação dos veterinários notificarem sobre ocorrências da doença e que o repasse dessas informações está insatisfatório.
A coordenadora da Vigilância Sanitária explicou que deveria ser implantado um programa de combate à doença como já ocorre na campanha contra a dengue. ?Isso é coisa de gestão e não uma questão operacional?, ressaltou.
De acordo com Fernanda, só depois de implantar o programa de combate à leishmaniose é que ações repressivas à doença serão tomadas, como a contratação de agentes de saúde para que seja feita uma vistoria em todas as casas do município, dentre outras medidas.
CCZ
Uma questão importante que precisa ser levantada é o grande número de cães abandonados nas ruas do município. Sem cuidado algum, esses animais estão sujeitos a dezenas de enfermidades, inclusive de serem contaminados pela leishmaniose, colocando em risco a saúde de outros animais e da população.
Sobre o funcionamento da inauguração do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), lugar para onde irão os cães recolhidos da rua, Fernanda disse que falta adquirir um veículo para transportar os animais e comprar produtos veterinários para começar o atendimento. Os funcionários que trabalharão no local já receberam treinamento e o imobiliário já foi disposto no espaço.
Anteriormente, o CCZ pertencia à Secretaria de Saúde, mas a responsabilidade foi transferida para a Secretaria de Gestão Ambiental, justamente para poder receber recursos provenientes de órgãos ligados à área de meio ambiente, como a Associação de Proteção Ambiental (Arpa II) de Divinópolis e o Ministério Público. ?Precisamos da ajuda desses órgãos, pois não tem como fazer o trabalho sozinho?, disse a coordenadora da Vigilância Sanitária.
Outra mudança ocorrida é que o CCZ passará a se chamar Coordenadoria de Defesa à Vida Animal (Codevida).
Na Secretaria de Saúde
Por diversas vezes, durante toda a quarta e quinta-feira, tentou-se contato com a secretária de Saúde, Luíza Flora, para saber quando será implantado o tal programa de combate à leishmaniose no município. Porém, nas diversas ligações realizadas para a pasta, a informação era que Luíza estava em reunião ou que não estava no prédio. No celular pessoal da secretária só chamava, e ela não retornou às ligações.
Leishmaniose visceral nos humanos
Leishmaniose visceral, ou calazar, é uma doença transmitida pelo mosquito-palha ou birigui (Lutzomyia longipalpis) que, ao picar, introduz na circulação do hospedeiro o protozoário Leishmania chagasi.
A doença não é contagiosa nem se transmite diretamente de uma pessoa para outra, nem de um cão para outro, nem dos animais para as pessoas. A transmissão do parasita ocorre apenas através da picada do mosquito fêmea infectado.
Na maioria dos casos, o período de incubação é de 2 a 4 meses, mas pode variar de 10 dias a 24 meses.
Sintomas
Os principais sintomas da leishmaniose visceral são febre intermitente com semanas de duração, fraqueza, perda de apetite, emagrecimento, anemia, palidez, aumento do baço e do fígado, comprometimento da medula óssea, problemas respiratórios, diarreia, sangramentos na boca e nos intestinos.
Diagnóstico
O diagnóstico precoce é fundamental para evitar complicações que podem pôr em risco a vida do paciente. Além dos sinais clínicos, existem exames laboratoriais para confirmar o diagnóstico. Entre eles destacam-se os testes sorológicos, e de punção da medula óssea para detectar a presença do parasita e de anticorpos.
É de extrema importância estabelecer o diagnóstico diferencial, porque os sintomas da leishmaniose visceral são muito parecidos com os da malária, esquistossomose, doença de Chagas, febre tifóide, etc.
Tratamento
Ainda não foi desenvolvida uma vacina contra a leishmaniose visceral, que pode ser curada nos homens, mas não nos animais.
Os antimoniais pentavalentes, por via endovenosa, são as drogas mais indicadas para o tratamento da leishmaniose, apesar dos efeitos colaterais adversos.
Em segundo lugar, está a anfotericina B, cujo inconveniente maior é o alto preço do medicamento. Uma nova droga, a miltefosina, por via oral, tem-se mostrado eficaz no tratamento dessa moléstia.
A regressão dos sintomas é sinal de que a doença foi pelo menos controlada, uma vez que pode recidivar até seis meses depois de terminado o tratamento.
Formiga
Casos crescentes de leishmaniose deixam a população em alerta
- por Últimas Notícias
- 10/02/2012 - 19:31








