Um problema a mais para quem depende do serviço de transporte público por ônibus em Belo Horizonte e enfrenta rotineiramente atrasos nas viagens, superlotações e condições precárias dos coletivos. Em apenas dez dias, dois veículos foram incendiados na capital mineira. Ao longo de todo o ano, quatro ônibus deixaram de circular pelo mesmo motivo – sendo que três deles ficaram completamente destruídos e outro parcialmente, conforme levantamento do Sindicato das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros de Belo Horizonte (SetraBH). Uma modalidade criminosa que impacta a rotina de quem precisa do serviço e que já gerou um prejuízo de mais de R$ 2 milhões apenas em 2023.

“Isso causa medo, até porque a segurança dos ônibus é falha. O fato de não ter cobradores nos coletivos contribui para que esse e outros crimes aconteçam. O motorista não consegue controlar todo tipo de situação”, afirma a backoffice Anna Luiza de Miranda, 23. A sensação de insegurança é a mesma para a assistente social Jacqueline Soares, 38, que é usuária da linha 806, que foi alvo de criminosos em setembro deste ano.  “Você já pensou que inúmeros passageiros não sabem lidar com situações de risco? O medo é de sofrer um dano provocado por alguém e perder a vida. Os danos materiais vão ter impacto sim, mas depois tudo se ajeita. Agora o dano à vida, esse não tem como voltar”, alerta.

A biomédica Débora Russo, 23, que utiliza o serviço de transporte público da capital acredita que essa forma de protesto, seja por causa das condições precárias dos presídios ou dos coletivos, prejudica ainda mais quem depende dos ônibus. “Não resolvem nada, acho que só atrapalha. Deixa a gente com medo e causa a diminuição dos ônibus daquela linha. Então, aquele serviço que já era ruim, com ônibus sujo, caindo água do ar condicionado, só tende a ficar pior”, lamenta.

Dos casos ocorridos neste ano na capital mineira, dois deles foram motivados por melhorias no sistema prisional do estado. Um bilhete e uma carta foram deixados nos coletivos com reivindicações de melhores condições para os detentos. Um outro caso ocorreu a partir da insatisfação dos funcionários de uma das empresas que operam no transporte público da capital. Eles alegaram atrasos nos pagamentos de benefícios e do INSS. Os casos são investigados pela Polícia Civil de Minas Gerais.

Para a especialista em Segurança Pública, Ludmila Ribeiro, os casos recentes de ônibus incendiados expõem a fragilidade do transporte público. Ela pontua ainda que muitas das vezes os ataques a coletivos não envolvem ação do crime organizado, mas são motivados por insatisfação popular. “As motivações diferentes nos casos recentes mostram como que a queima de ônibus é realizada por grupos diversos com uma única forma de ver os governantes. É um protesto popular para mostrar insatisfação por conta das condições do transporte público, dos presídios e outros problemas. Muitas das vezes não têm nada a ver com o crime organizado, isso é indignação de familiares, por exemplo”, avalia.

A especialista alerta que os ataques recentes podem gerar um “efeito cascata”, aumentando a chance de novos incêndios. Por isso, ela ressalta a necessidade de abertura de canais efetivos de comunicação com a sociedade. “A principal forma de combater é abrir canais efetivos de comunicação com a população, seja livre ou encarcerada. É ouvir as demandas, pois muitas vezes as pessoas acreditam que não são ouvidas”, finaliza.

A reportagem do jornal O Tempo procurou o Sindicato das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros de Belo Horizonte (SetraBH), que representa as empresas responsáveis pelo serviço na capital, e questionou se os veículos possuem seguro, qual o prazo para a substituição dos coletivos quando um deles é incendiado e como esse processo é feito. O Sindicato não se manifestou. Por meio de nota, a BHTrans, que é a empresa responsável por organizar o trânsito na capital, informou que todo esse procedimento é de responsabilidade do Setra.

O presídio de Formiga

No coletivo da linha 621 (Estação Venda Nova /Lagoa) que foi incendiado durante a madrugada do último domingo (3 de novembro), os suspeitos deixaram um bilhete pedindo melhorias para o presídio de Formiga, na região Centro-Oeste de Minas Gerais. O conteúdo, no entanto, não foi informado pela polícia.

Em junho deste ano, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) determinou que o Governo do Estado teria o prazo de 90 dias para apresentar e executar um projeto para a regularização da distribuição de água na penitenciária. Conforme denúncias, a quantidade não era suficiente para os detentos, visitantes e funcionários. Na ocasião, também ficou determinado que melhorias deveriam ser feitas na alimentação fornecida na unidade.

Procurado pela reportagem, o Tribunal de Justiça de Minas (TJMG) disse que o processo foi suspenso em 25 de outubro, pelo prazo de 15 dias, após as partes apresentarem possibilidade de conciliação. Em 13 de novembro, o prazo foi prorrogado por mais 20 dias. “Caso a conciliação não seja efetuada, o processo seguirá seu trâmite normal”, disse.

Por meio de nota, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) informou que está ciente do caso envolvendo o ônibus incendiado e que aguarda a finalização do inquérito policial. “Até o momento, não é possível afirmar que a ocorrência tenha, de fato, ligação com o sistema prisional”, disse, em nota.

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