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Jacatirão: a flor do Brasil

Foto: UN

Como dizem minhas filhas, “moro onde muita gente tira férias”. Uma vive em Nice, na França, e a outra em Lisboa. É um privilégio poder ver o mar para praticamente qualquer lado que eu olhe, aqui na Ilha Capital. Mas meus olhos míopes se revitalizam, se iluminam com a visão das matas que mesclam o verde com o vermelho, com o arvoredo pintado de cores que vão do branco ao vinho, no litoral norte de Santa Catarina e em outros estados, como Paraná e São Paulo.

Tenho uma relação de amor e dor com o jacatirão. Quando perdi minha primeira filha, há bastante tempo, fazia poucos anos que eu havia descoberto essa árvore grande e generosa, que se cobre de flores no final da primavera e esbanja beleza até o fim do verão. Eu já me tornara admirador e propagador da sua exuberância. Então, quando estávamos indo sepultar minha menina, um raio de luz e cor conseguiu atravessar a névoa de dor que cobria meus olhos, e eu vi as primeiras flores de jacatirão daquela temporada, numa árvore ao lado do cemitério.

Dessa experiência nasceu um pequeno/grande poema: pequeno no tamanho, mas imenso no significado:

“A primeira flor / de jacatirão / da primavera, / em outubro, / tem um nome: / saudade…”

A relação que temos, eu e o jacatirão, não é apenas de amor e dor, mas também de cumplicidade. Acredito que ele veio me consolar numa hora em que eu precisava muito de luz para mostrar o caminho, para me dar chão e esperança. Ele me ensinou que a vida segue e que o tempo cura quase tudo; que a saudade se torna companheira e a dor diminui, embora às vezes volte um pouco mais forte. A perda nos ensina a valorizar mais o que temos, a amar melhor a vida e nossos entes queridos.

Por isso gosto de falar do jacatirão, de todos os tipos: do nativo, que floresce no meio da mata, no verão, no nordeste da nossa Santa e bela Catarina, autêntica árvore de Natal que se enfeita para o 25 de dezembro e a virada do ano — em meados do verão floresce também no Paraná, em São Paulo e pelo Brasil afora; da quaresmeira, que floresce mais ao sul de Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e em quase todo o país, na época da Páscoa, com suas flores menores, mas intensamente coloridas; e do jacatirão de jardim, conhecido como manacá-da-serra, que floresce no inverno. Sem contar o jacatirão-roxo e outras variedades menos conhecidas, que eu chamo de “parentes do jacatirão”.

Gosto de falar dele também para contestar o verbete do dicionário Aurélio, que o descreve como uma árvore de “flores insignificantes”. Para mim, essa definição revela desconhecimento.

Você, leitor de qualquer parte do Brasil que não conhece o jacatirão, preste atenção se um dia viajar para o Sul ou para o Sudeste: do final de outubro até fevereiro, em vários trechos da BR-101 e de outras rodovias, verá manchas vermelhas nas matas que ladeiam as estradas. É o jacatirão nativo enfeitando nossos caminhos, lembrando-nos que o mundo é bonito e que podemos, sim, ser felizes, se quisermos. Ele estará sempre por aí, arauto da Mãe Natureza, tributo à renovação e à vida. É impossível não se render à sua beleza e não agradecer ao Universo por tamanho espetáculo.