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Jesus era essênio?

Foto: UN

Pouco se sabia sobre essa seita judaica dos essênios até que, em 1947, conforme relata Raymond Brown no livro Recent Discoveries and the Biblical World, beduínos descobriram rolos e fragmentos de cerca de 600 manuscritos em onze cavernas próximas de Qumran, no lado oeste do Mar Morto.

Escavações do sítio, conduzidas por R. de Vaux e G. L. Harding entre 1951 e 1956, revelaram um conjunto de edifícios comunitários, sistema de água, cozinha, refeitórios, despensas, oficinas de cerâmica e scriptorium, ocupados de cerca de 135 a.C. até cerca de 31 a.C., e, em um segundo período, de cerca de 1 d.C. até 68 d.C. Isso concorda com as evidências paleográficas que datam a maioria dos rolos e fragmentos dos dois últimos séculos a.C. e do primeiro século d.C.

Hoje, é geralmente aceito que, em Qumran, foram descobertos o assentamento central e as bibliotecas dos essênios, uma das três seitas judaicas segundo a classificação de Flávio Josefo em Antiguidades Judaicas, cuja cidade no deserto é descrita por Plínio, o Velho em História Natural como situada na margem ocidental do Mar Morto, ao norte de En-Gedi.

Os essênios, assim como as outras duas seitas — fariseus e saduceus — surgiram da revolta judaica contra o domínio sírio, iniciada sob a liderança dos macabeus em 167 a.C. contra o odiado Antíoco IV Epifânio, que havia saqueado o Templo e erguido um altar a Zeus Olímpico. Eventualmente, por volta de 152 a.C., Jônatas Macabeu, irmão de Judas Macabeu, apropriou-se do sumo sacerdócio, cargo no qual foi sucedido por seu irmão Simão Macabeu em 143 a.C., estabelecendo assim a dinastia hasmoneia.

Uma descoberta importante foi que os essênios e os primeiros cristãos judeus compartilhavam muitas características em comum. Ambos enfatizavam fortemente a vinda do Messias e o cumprimento dos planos de Deus, juntamente com a necessidade de reformar um núcleo de Israel para esse momento.

Eles também tinham um apelo fundamental em Isaías (40,3): “Preparai o caminho do Senhor… no deserto”; um forte senso de comunidade e unidade, incluindo comunhão de bens; uma refeição sagrada de pão e vinho; ênfase no celibato; rejeição do divórcio; uma visão dualista da humanidade, dividida entre filhos da luz e filhos das trevas, comum à Primeira Epístola de João; simbolismo especial para Melquisedeque; um papel comunitário dado a um grupo de doze; um supervisor (bispo) que cuidava dos bens comuns e examinava a doutrina dos membros, servindo como pastor de seu povo; reuniões dos membros chamadas “os Muitos” (ver Atos 6,5; 15,12).

Os hinos de Qumran e os hinos presentes em Evangelho de Lucas 1-2 (Magnificat, Benedictus, Gloria, Nunc Dimittis) possuem muitas semelhanças, tanto no formato quanto na técnica de reformular passagens do Antigo Testamento. Em outras palavras, o cristianismo nasce de ideais essênios.

O que faz pensar: se Maria e José fossem da seita, celibatários, e recebessem a visita de Gabriel para formar a Sagrada Família, continuariam a viver castos, dedicados apenas a zelar por Jesus Cristo (do hebraico, “Deus salva”) e sua missão. Isso faria sentido aos relatos que apareceram 80 anos depois e que chamamos de Evangelhos.

 

Mario Eugenio Saturno