Trocas de mensagens por celular recuperadas pela Polícia Federal (PF) apontam que o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, e o banqueiro Daniel Vorcaro teriam combinado o pagamento de propina no contexto da tentativa de compra de parte do Banco Master pelo banco público.
Os diálogos foram tornados públicos após decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, que autorizou a prisão de Costa nesta quinta-feira (16). As conversas são consideradas peça-chave na investigação que embasou a medida.
De acordo com a PF, a vantagem indevida paga a Paulo Henrique Costa totalizou R$ 146 milhões, por meio da transferência de seis imóveis de alto padrão — dois localizados em Brasília e quatro em São Paulo.
As mensagens mostram discussões sobre apartamentos na capital paulista, que seriam oferecidos como recompensa ao então presidente do BRB.
Na decisão, André Mendonça afirma que os diálogos revelam “forte proximidade” entre Costa e Vorcaro, além de “comunhão de desígnios para a prática de ilícitos”.
Em uma das mensagens, Costa menciona alinhamento com Vorcaro e trata de questões relacionadas à operação financeira, além de comentar sobre a visita a um imóvel:
“Amigo, obrigado pela conversa de hoje… estou mais empolgado com o que vamos construir.”
Ele também afirma:
“Seria legal mostrar o apartamento para ela”, ao se referir à visita com a esposa.
Vorcaro responde:
“Fala amigo, ótimo, também estou empolgado… vou te passar uma pessoa que te mostrará o apto”.
Outras mensagens indicam tratativas sobre valores vinculados aos imóveis:
“Fiz as contas para chegar no valor que combinamos”, escreveu Costa.
“Vc diz casa Leopoldo, né?”, respondeu Vorcaro.
Há ainda cobranças sobre o andamento das transferências:
“Amigo, pessoal esperando seu de acordo sobre os imóveis de São Paulo. Pode ajudar?”, questionou Costa.
“Do meu lado dei carta branca”, respondeu o banqueiro.
Segundo Mendonça, os diálogos sugerem que Costa cumpria sua parte em um suposto acordo ilícito.
Operação Compliance Zero e decisões judiciais
A troca de mensagens integra a quarta fase da Operação Compliance Zero. Além da prisão preventiva de Costa, o ministro do STF determinou a prisão de Daniel Monteiro, advogado ligado ao Banco Master, e autorizou sete mandados de busca e apreensão.
Mendonça afirma que há indícios de que Costa atuava como “verdadeiro mandatário” de Vorcaro no BRB, recebendo imóveis avaliados em cerca de R$ 150 milhões em contrapartida.
O ministro também aponta possíveis crimes, como corrupção passiva, lavagem de dinheiro, organização criminosa e ilícitos contra o sistema financeiro nacional.
A investigação está relacionada à tentativa de compra do Banco Master pelo BRB, conduzida por Paulo Henrique Costa. A operação foi posteriormente barrada pelo Banco Central, que também determinou a liquidação da instituição financeira de Vorcaro.
Segundo a PF, há provas de que o ex-presidente do BRB recebeu vantagens indevidas durante o processo.
O BRB, que tem o Governo do Distrito Federal como principal acionista, acumulou um rombo bilionário após adquirir ativos considerados problemáticos do Banco Master.
Uma lei aprovada pela Câmara Legislativa do DF autorizou o governo a utilizar imóveis públicos como garantia para operações financeiras destinadas a cobrir prejuízos estimados em ao menos R$ 8 bilhões.
O Banco Master, anteriormente chamado Banco Máxima, foi adquirido por Vorcaro em 2018 e rebatizado em 2021. A instituição cresceu com uma estratégia agressiva de captação, oferecendo rendimentos de até 140% do CDI.
No entanto, operações envolvendo precatórios e dificuldades financeiras aumentaram as suspeitas sobre a saúde do banco. Mesmo sob investigação da PF, Vorcaro buscava vender a instituição.
Em setembro, o Banco Central vetou a compra do Master pelo BRB devido a riscos e inconsistências. Em 18 de novembro, o banco foi liquidado, afetando mais de 1,6 milhão de clientes.
A operação levou ao acionamento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), em um ressarcimento estimado em R$ 41 bilhões.
No mesmo dia, a PF deflagrou a Operação Compliance Zero, que apura um esquema de fraudes que teria movimentado mais de R$ 12,2 bilhões em créditos inexistentes.
Antes de ser preso, Vorcaro tentava embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A PF suspeita que a viagem poderia representar tentativa de fuga.
Horas antes, a Fictor Holding anunciou a compra do banco, com aporte de R$ 3 bilhões e participação de investidores estrangeiros ainda não identificados. Investigadores acreditam que a operação poderia ter sido usada para encobrir a saída do país.
As investigações revelam um complexo esquema envolvendo negociações financeiras, suspeitas de corrupção e movimentações bilionárias no sistema bancário. As mensagens entre os investigados são consideradas centrais para a apuração dos fatos, enquanto o caso segue em análise no Supremo Tribunal Federal e por órgãos de controle.
Com informações do O Tempo







