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O cérebro e a realidade

Foto: UN

Confesso que estou cada vez mais surpreso com a capacidade do ser humano em acreditar em coisas muito estranhas ao bom senso. Conheci alguns alemães da época da Segunda Guerra, e a curiosidade da ascensão do Nazismo sempre me foi grande. O que vejo hoje pelo mundo, não só no Brasil, levou-me a pesquisar: como o cérebro sabe que algo é real?

Achei um artigo no Popular Science, de julho de 2025, que resume bem isso. A psicóloga pioneira Mary Cheves West Perky relata, em um artigo de 1910 sobre imaginação e percepção, que pediu a pessoas que visualizassem objetos, um tomate vermelho, uma folha verde etc., em uma parede em branco. Secretamente, naquele espaço aparentemente vazio, Perky projetava imagens quase invisíveis desses mesmos objetos na parede.

Os sujeitos não perceberam nada, atribuindo os objetos percebidos às suas imaginações em vez das projeções. Ela concluiu que parecia que a imagem da imaginação deve ter muito em comum com a percepção da vida cotidiana.

Mais de um século depois, muitos pesquisadores concordam, acreditando que imaginação e percepção trabalham juntas para criar nosso senso de realidade. Mas como nosso cérebro sabe o que é real e o que não é? É o tema da pesquisa da neurocientista Nadine Dijkstra, investigadora principal (PI) no Imagine Reality Lab da University College London. Ela observa que nosso cérebro cria a nossa percepção da realidade confiando nos olhos e ouvidos.

Esse modelo de experienciar a realidade é eficiente, mas não infalível: às vezes nosso cérebro erra. Essa dissonância é algo que Dijkstra examina em seu estudo, publicado recentemente na Neuron.

Esperava-se que os resultados fossem mais complicados e nuançados. Em vez disso, a atividade cerebral medida por exames de ressonância magnética funcional (fMRI) mostrou que se podia prever se alguém acreditava ou não que uma imagem era real pelo nível de atividade no giro fusiforme, a região localizada em ambos os lados do cérebro, atrás das têmporas, e que desempenha um papel importante no reconhecimento de rostos e objetos. Sua capacidade de potencialmente distinguir o real do falso, porém, era algo que os neurocientistas não conheciam antes.

No experimento, pediram aos participantes que imaginassem conjuntos de linhas diagonais em uma tela projetada na máquina de ressonância através de um espelho. Linhas diagonais eram exibidas contra um fundo ruidoso, tipo estática de TV, para tornar mais difícil distinguir realidade de imaginação.

Quando alguém via linhas projetadas reais, a atividade no giro fusiforme era mais forte do que quando sabia que estava simplesmente imaginando as linhas diagonais. Na parte frontal do cérebro, a ínsula anterior do córtex pré-frontal, que atua como uma espécie de conector entre redes cerebrais, também mostrou atividade aumentada quando os participantes viam as linhas projetadas.

Isso é muito importante, pois, se confirmar a ligação entre a atividade no giro fusiforme e alucinações, por exemplo, pode permitir que, no futuro, estimulem essa parte do cérebro para tratar sintomas de esquizofrenia e outros transtornos cerebrais.

 

Mario Eugenio Saturno