Não teve Maracanazo nem Mineirazo. Não teve carrasco francês nem argentino nem holandês. Não teve vilão. Apesar do brilhantismo alemão, os desfalques de Neymar e Thiago Silva, falhas e decepções individuais, como Daniel Alves e Fred, não há nada além de nossa própria incapacidade coletiva, a velha crença de superioridade e expectativas hiperdimensionadas para justificar a perda de mais uma Copa no Brasil.
1) As laterais explicam o todo
É possível listar vários aspectos táticos, mas nenhum outro ilustra melhor o quão ultrapassado ficou o futebol brasileiro quanto nossas laterais, os pontos fracos durante toda a Copa, por falta de equilíbrio do time e por deficiência técnica.
2) Quando tá valendo, tá valendo
A Copa das Confederações foi uma grande ilusão. Técnicos adversários utilizaram a competição, um resumidíssimo ensaio de Mundial (com apenas oito seleções), para testes e experimentos táticos. Já o Brasil, reoxigenado por Felipão, entrou para ganhar. O título fez a seleção – e o Brasil inteiro – acreditar que seria possível vencer a Copa com o mesmo futebol.
3) Felipão não é vilão…
Nem quando estava no auge da carreira Felipão era adepto de inovações. A opção pela dupla Felipão-Parreira foi uma escolha por resultados imediatos, o hexa ou nada. Nada de revoluções táticas, nada de novidade.
4) …Mas tem a maior parcela de responsabilidade
Novamente fomos traídos pelo resultado ilusório da Copa das Confederações. De repente, uma geração até então ?fracassada?, de jovens ?inexperientes? como Neymar, Oscar, Bernard e Marcelo, se tornou o time a ser batido.
5) Nem tão jovem assim
Apesar da pose de favorita, a seleção sempre recorria ao argumento de ?time jovem? para justificar os escorregões do time. Mas o Brasil esteve longe de ter o elenco menos experiente da Copa, com média de idade de 26,7 – Gana, a seleção mais jovem do Mundial, trouxe uma equipe com média de 24,9 anos. Ainda assim, fica o legado da continuidade: boa parte desses jogadores terão idade para disputar mais uma (ou duas, ou três) Copas, diferentemente do time formado por Dunga no último Mundial, com média de 29,3 anos.
6) Overdose de emoção
Quanto mais pegado e pilhado um jogo, melhor para o time mais fraco. Jogadores e principalmente comissão técnica manipularam a dose errada do próprio veneno. Acharam que Del Bosque tinha razão ao dizer que o Brasil ganhou a Copa das Confederações no hino – e não no já escancarado declínio da geração espanhola -, e convocaram a torcida a seguir entoando-o à capela. Coisa linda, até o ponto em que alguns, como Thiago Silva e Neymar, se emocionaram além do normal.
7) Na hora certa, o lugar errado
Se o objetivo da seleção era ter privacidade em Teresópolis, ele falhou bem antes de a Copa começar. A escolha da Granja Comary como centro de treinamento para a Copa foi um erro. Desde que o elenco se apresentou, dezenas de torcedores que têm acesso ao condomínio vizinho à Granja se aglomeravam sobre as grades e faziam algazarra em todas as atividades no campo.
8) Deu migué?
Não, a seleção não fez corpo-mole nos treinos. A maioria dos jogadores, como Hulk, por exemplo, se apresentou no limite do limite físico depois de uma temporada desgastante na Europa. O Brasil foi uma das poucas seleções a não perder nenhum jogador por contusão até as quartas. A goleada histórica da Alemanha foi fruto de imposição predominantemente técnica, não física.
9) Neymar
O retrato de que o time não é nem nunca foi tão bom quanto a miragem criada pós-Copa das Confederações. Há muito tempo é assim: se Neymar joga bem, o Brasil joga bem. Não o contrário.
10) O que sobra
No fim das contas, o Brasil perdeu por se achar superior simplesmente pelo fato de jogar em casa, ter camisa e um título alegórico de Copa das Confederações debaixo do braço. Mas o tropeço, ainda que vexaminoso, não pode estigmatizar um time que tem condições de fazer jus ao status de favorito pela qualidade e experiência, não somente pela tradição, daqui a quatro anos.

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