Algumas pessoas citam a Bíblia em Latim! Parecem desconhecer que a escrita da Palavra de Deus tenha uma história complicadíssima. Veja-se que Papias de Hierápolis, que ouviu alguns apóstolos, preferia a tradição oral à escrita, segundo Eusébio.
Os judeus (e israelitas) falavam hebraico e usaram o alfabeto (script) fenício, também chamado de páleo-hebraico, para escrever parte da Palavra de Deus (embora não tenhamos cópias). Em 586 a.C., o Templo foi destruído e o povo judeu foi levado para a Babilônia e teve que aprender aramaico e… esqueceu o hebraico.
Os próprios escribas e saduceus passaram a usar o alfabeto aramaico, inclusive escreveram partes da Bíblia em aramaico (língua). Uma curiosidade: os essênios tinham textos em aramaico e grego, mas preservavam o famoso Tetragrama (nome de Deus, Javé) em alfabeto fenício, chamado por eles de alfabeto sagrado (hoje, os judeus chamam sagrado o alfabeto derivado do aramaico quadrático, chamado K’tav Ashuri — Escrita Assíria — agora, Alephbet).
Creio que os essênios tinham os textos em grego porque os dois alfabetos “hebraicos” não tinham vogais e, juntando cópias imprecisas, tornaram muitos trechos incompreensíveis. Ou seja, ler hebraico é ter que traduzir algo obscuro para a fala.
Muitos judeus que viviam no Egito (diáspora), em Alexandria, desaprenderam o hebraico e o aramaico e tiveram que traduzir a Palavra de Deus para o grego koiné e até escreveram algumas histórias (os deuterocanônicos) durante os séculos III e II a.C., versão conhecida como Septuaginta ou LXX.
Quando se traduz para outra língua, o tradutor interpreta o original, sempre perde algum sentido. Mas, por estar mais perto dos escritores originais, a LXX deve ser a mais precisa e até melhor que o original. Veja-se que os essênios e os cristãos primitivos a usavam. Muito da teologia cristã está na LXX e não na hebraica, como, por exemplo: “uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Emanuel”; a versão hebraica fala diferente.
O Império Romano começou falando grego, a língua de Alexandre, mas impôs o Latim em alguns séculos, quando apareceram traduções da Bíblia, as chamadas Vetus Latina. O Papa Dâmaso resolveu organizar e chamou Jerônimo. Ele completou o serviço no ano 405. Porém, consolidou as modificações que os judeus massoretas introduziram no AT, erro que os protestantes seguiram… Sola Scriptura de uma Bíblia alterada e que já não era Scriptura Sola.
Nessa época de Jerônimo, Santo Agostinho já escrevia sobre as mudanças que o Latim sofria. Pelo século IX já se identificava uma nova língua que seria conhecida como português. A primeira Bíblia em nossa língua apareceu no século XVII, a Almeida. Ele usou o grego, o hebraico e o latim, seguiu o esquema de Jerônimo (incluía os deuterocanônicos, chamando-os de apócrifos).
Mas, somente após o Concílio Vaticano II, a Missa passou a ser rezada no vernáculo. Estudar Latim é extremamente importante, pois mais de 1500 anos de Cristianismo estão preservados nessa língua. Hoje, ler a Bíblia em Latim é passar por um intermediário nada útil. Basta-nos o grego koiné.







