O modelo tradicional de tratamento do transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) pode estar em revisão. Um estudo publicado em 5 de janeiro na revista Nature Mental Health reacendeu o debate científico ao indicar que medicamentos não estimulantes, como a atomoxetina, apresentam eficácia muito próxima à dos estimulantes em uma parcela significativa dos pacientes.
A pesquisa revisou ensaios clínicos, meta-análises e dados de mundo real. Os resultados mostraram que 45% dos pacientes responderam bem à atomoxetina, enquanto 56% tiveram melhora com metilfenidato. Meta-análises apontam que os estimulantes são apenas ligeiramente mais eficazes. O estudo também calculou o Número Necessário para Tratar (NNT), que foi de 8 — ou seja, seria preciso tratar oito pacientes com estimulantes para que apenas um tivesse benefício adicional relevante em comparação aos não estimulantes.
Outro dado relevante é que até 47% dos pacientes podem ter resposta excelente aos não estimulantes, com tolerabilidade semelhante entre as duas classes. Para o psiquiatra Paulo Mattos, pesquisador do Instituto D’Or, os resultados questionam uma hierarquia consolidada. “O artigo sugere, de modo indireto, que os conceitos de ‘primeira linha’ e ‘segunda linha’ não se sustentam cientificamente”, afirma.
Na prática clínica, especialistas destacam que iniciar o tratamento com um não estimulante pode ser estratégico em casos de irritabilidade marcante, presença de tiques motores ou risco de uso abusivo — já que estimulantes podem ser utilizados de forma indevida. Pacientes com TDAH associado ao transtorno do espectro autista também podem se beneficiar da atomoxetina.
Para o psiquiatra Luis Augusto Rohde, professor da UFRGS, o debate aproxima a ciência da realidade dos consultórios. “Muitos pacientes — especialmente adultos — apresentam comorbidades que não costumam aparecer nos ensaios clínicos mais controlados”, explica. Já o neurologista Erasmo Casella, do HCFMUSP, ressalta que os não estimulantes têm início de ação mais lento, mas podem oferecer efeito contínuo por 24 horas, o que pode ser vantajoso em determinados perfis.
Segundo os especialistas, o impacto do estudo não é substituir uma classe por outra, mas flexibilizar a escolha inicial. A tendência é que médicos considerem desde o começo o perfil clínico, as comorbidades e o contexto de cada paciente, ampliando as possibilidades terapêuticas e reduzindo trocas sucessivas de medicamentos.
Com informações do Metrópoles







