Ciência e Saúde

Vacina contra malária desenvolvida pela UFMG recebe aval para testes em humanos

Foto: Magnific/Imagem ilustrativa

Uma vacina 100% brasileira contra a malária vivax, forma da doença que predomina no Brasil, recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar testes em humanos. A Vivaxin foi desenvolvida pelo CTVacinas, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e o laboratório Cristália.

A autorização foi concedida nessa quarta-feira (7). Com o aval, a candidata poderá avançar para a fase 1 dos testes clínicos, etapa que vai avaliar a segurança do imunizante e a resposta do organismo à vacina.

A previsão é que o estudo reúna 48 voluntários saudáveis, com idades entre 18 e 59 anos e sem histórico de infecção por malária. Os participantes serão divididos em grupos para receber diferentes dosagens da Vivaxin ou placebo. O esquema prevê três aplicações, com intervalo de 28 dias entre as doses.

O Centro de Pesquisas Clínicas do Hospital das Clínicas da UFMG, em Belo Horizonte, está registrado como local do estudo. O acompanhamento dos voluntários deverá durar 360 dias.

Vacina inédita

A Vivaxin é voltada especificamente contra o Plasmodium vivax, espécie do parasita responsável pela maior parte dos casos de malária no Brasil. Atualmente, não existe vacina contra essa espécie disponível para uso na população.

As duas vacinas contra a malária recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), RTS,S/AS01 e R21/Matrix-M, foram desenvolvidas contra outra espécie, o Plasmodium falciparum.

“Ela tem um impacto socioeconômico importante, porque a pessoa doente não pode trabalhar”, afirma Ricardo Gazzinelli, coordenador do CTVacinas. Segundo o pesquisador, uma vacina contra a malária vivax pode ajudar a reduzir os impactos da doença na saúde e na rotina das populações que vivem em áreas de transmissão.

Como será o estudo

Na primeira fase dos testes, os pesquisadores vão avaliar principalmente a segurança da Vivaxin, possíveis reações provocadas pela aplicação e a capacidade de estimular uma resposta imunológica.

Os resultados dessa etapa serão utilizados para orientar as fases seguintes do desenvolvimento, nas quais será possível avaliar de forma mais ampla a capacidade da vacina de proteger contra a doença.

O projeto recebeu apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), da Finep, da Fapesp e do Ministério da Saúde, por meio do Programa de Desenvolvimento e Inovação Local (PDIL).

Malária vivax

Segundo o Relatório Mundial da Malária 2025, da OMS, foram registrados cerca de 9,9 milhões de casos de malária por P. vivax em 2024. Nas Américas, a espécie representou 63,1% dos casos estimados naquele ano.

A transmissão ocorre principalmente pela picada de fêmeas infectadas de mosquitos do gênero Anopheles. Entre os sintomas mais comuns estão febre, calafrios e dor de cabeça.

Uma das dificuldades no combate à malária vivax é a capacidade do parasita de permanecer em estado dormente no fígado e voltar a causar a doença posteriormente. Por isso, o tratamento precisa combater tanto os parasitas presentes no sangue quanto essas formas latentes, responsáveis por possíveis recaídas.

Embora o P. falciparum esteja associado à maior parte dos casos graves, a malária vivax também pode provocar complicações, como anemia grave, problemas respiratórios e ruptura do baço.

Impacto no Brasil

Em 2025, o Brasil registrou 118.037 casos de malária contraídos no território nacional, segundo o Ministério da Saúde. Mais de 99% dos casos autóctones se concentram na região amazônica.

O país tem como meta interromper a transmissão local da doença até 2035. Uma vacina contra o P. vivax, caso demonstre segurança e eficácia nas próximas etapas de pesquisa, poderá se somar às estratégias já utilizadas para combater a malária, como controle do mosquito, diagnóstico e tratamento.

“Essa vacina pode ter um papel extremamente importante para eliminar a malária do nosso território e, com isso, também contribuir com a eliminação da malária na América Latina”, avalia Gazzinelli.

A pesquisa da Vivaxin começou com a descoberta do antígeno e os primeiros testes realizados na USP. O projeto passou depois a ser desenvolvido em conjunto com o CTVacinas, instalado no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC).

Para Gazzinelli, a experiência adquirida durante o desenvolvimento da SpiN-TEC, candidata brasileira contra a covid-19, também contribuiu para o avanço do projeto. “A SpiN-TEC nos ensinou a rota do desenvolvimento de vacinas”, afirma.

Antes de chegar à etapa de testes em humanos, a Vivaxin também recebeu reconhecimento internacional. Em fevereiro de 2025, a pesquisadora Ana Clara Gazzinelli, do CTVacinas, recebeu o prêmio de melhor apresentação oral na Gordon Research Conference sobre Doenças Tropicais Infecciosas, realizada na Itália, pelo trabalho relacionado à candidata vacinal.

 

Fonte: Agência Content Box