Tudo no crack vem carregado de uma velocidade vertiginosa. O efeito no cérebro, a fissura por mais um cachimbo, a transformação de corpos saudáveis em figuras esqueléticas, o despudor de roubar para aquietar o vício. No mesmo ritmo acelerado com que fabrica indigentes e criminosos, desfacela famílias e mata, a pedra elaborada dos restos da cocaína chega aos grotões do país. Difícil imaginar, há 20 anos, época dos primeiros relatos de uso do crack entre meninos de rua no centro de São Paulo, que a droga ganharia cidades minúsculas, atingiria aldeias indígenas, escravizaria trabalhadores de zonas rurais. Ao embarcar no pau de arara saindo do Maranhão, com a roupa do corpo e esperança de uma vida melhor, Saulo* também desconhecia a existência do que ele chama de demônio.








