A inflação invade supermercados e postos de combustíveis e chega à casa dos mineiros, acumulada em 12,13% nos últimos 12 meses, fechados em abril, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Ao mesmo tempo, o primeiro trimestre terminou com 12 milhões de desocupados no Brasil, e o endividamento e a inadimplência das famílias bateram mais um recorde em maio. O cenário, na percepção dos mineiros, é de crise econômica: 66% da população do Estado acredita que o país passa por uma crise e tem dificuldade em superá-la. E 91,3% afirmam que foram afetados pela situação da economia, seja pela inflação, por dívidas ou desemprego, segundo pesquisa Datatempo, publicada nessa sexta-feira (13).

Os indicadores econômicos do país são mais que números e afetam, na prática, o dia a dia dos mineiros. A cozinheira Jessica Batista, 26, diz não ter dúvidas de que o país atravessa uma crise econômica e que a economia piorou nos últimos anos. Seu marido é catador de recicláveis e viu a renda minguar na pandemia: antes, ele conseguia, em média, R$ 50 por dia, valor que caiu para, no máximo, R$ 30, além de perder valor devido à inflação.

“Hoje, tudo está mais difícil, e muita gente está na mesma situação que eu, passando bem apertado. Eu recebo auxílio do governo, mas não confio nisso, porque acho que ele pode ser cortado a qualquer momento. No mês passado, comprei um gás de R$ 135. Às vezes, eu tiro de uma coisa para investir em outra”, relata.

Cientista social e analista de pesquisa Datatempo, Bruna Assis explica que o impacto foi generalizado e somente uma minoria da população afirma não ter sido afetada. “O que os dados indicam, quando juntamos essas questões em um indicador de situação econômica, é que apenas 8,6% dos mineiros não foram afetados em nenhuma instância de suas vidas pela crise econômica, enquanto 70% tiveram sua vida afetada por pelo menos uma das dimensões de crise. Já 21,3% afirmam que foram muito impactados pela inflação, pelas dívidas, pelo desemprego e pelo atraso de contas”, detalha.

Os dados econômicos dão pouca margem à esperança no cotidiano, explica o professor de economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Mario Rodarte. “Há noções mais técnicas sobre recessão, mas tem um dizer norte-americano que diz: recessão é quando seu vizinho está desempregado, e depressão é quando você também está. O desemprego está em um nível elevado há muito tempo, devido à incapacidade de o setor produtivo gerar trabalho. Somou-se a isso a questão da inflação. Os juros estão altos para tentar contê-la e porque a inadimplência está alta, mas a inadimplência é alta por causa dos juros. É um círculo vicioso explosivo”.

Crise é desigual, e classe mais alta se sentiu menos afetada

A maioria dos mineiros de qualquer faixa salarial declarou que foi impactada pela situação econômica, contudo a gravidade do impacto foi pior para quem recebe até dois salários mínimos (R$ 2.424). Nessa faixa, 93,7% das pessoas declararam ter sido impactadas, e 27,6%, muito impactadas. Já nas faixas mais elevadas, 14,2% de quem ganha de cinco a dez salários mínimos (de R$ 6.060 a R$ 12.120) e 11,4% de quem recebe mais de dez salários disseram não ter sido nada impactados.

“É um degradê, uma gradação do problema. Algumas pessoas estão cortando compras supérfluas. Outras estão brigando no mercado por promoção de cebola. Quando essa crise foi instalada, a taxa de desemprego para os 25% de famílias mais ricas estava em 2,4%, e para as 25% mais pobres, 18,9%. Eu me sinto muito mal em informar isso, porque tendo a ser otimista, mas o cenário não está dando alento, e o tripé da crise, de inflação, juros altos e desemprego vai continuar estabelecido”, diz o professor de economia da UFMG Mario Rodarte.

Coordenadora institucional do Movimento das Donas de Casa e Consumidores de Minas Gerais, Solange Medeiros reforça que o arrocho é pior para as famílias mais pobres, já que reduz a renda até para as compras mais básicas. A classe média, na perspectiva dela, teve que perder confortos. “Ela perdeu viagens, perdeu o lazer”, pontua.

Fonte: O Tempo

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