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A classe média

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Nos dez anos, entre 2003 e 2013, o Brasil presenciou a ascensão de uma nova classe média, classe C, bem diferente dos tempos em que o Brasil foi apelidado de Belíndia, na década de 1970, devido às profundas desigualdades existentes, onde a minoria vivia em condição similar à Bélgica e a grande maioria vivia em condição de miserabilidade semelhante à da Índia.

Entre 2004 e 2010, 32 milhões de brasileiros ascenderam à classe C, chamada de classe média, com renda entre R$3 mil e R$6.585. Cerca de 19 milhões deixaram a pobreza extrema, conforme dados do IBGE. Foram anos de incentivo ao consumo e ao crédito, com crescimento da melhoria do bem-estar e do poder aquisitivo.

Neste contexto, o consumo propiciou para muitas pessoas a oportunidade de acesso a diversos produtos, como eletrodomésticos, eletroeletrônicos, certos alimentos específicos (iogurte, biscoitos, etc.).

Em 2010, o noticiário era positivo sobre a expansão do consumo e dos elevados índices de confiança dos consumidores e dos empresários.

Entretanto, apesar do modelo de estímulo ao consumo através do endividamento ter propiciado ao Brasil ultrapassar a crise de 2008 incólume, não houve implantação de um novo modelo de desenvolvimento e atualmente, após dois anos de profunda crise econômica e política, todas as classes passam por dificuldades para manter o seu padrão de vida, pois todos querem ascender nas classes sociais e, principalmente, nunca desejam descer na escala social.

A classe média, especificamente, tem feito malabarismos para manter o seu padrão de vida, refletindo isto em suas compras e na forma de reduzir o consumo.

Todas as pessoas da classe média têm dívidas e compromissos mensais. Para equilibrarem o orçamento priorizam o pagamento de certos gastos em detrimento dos demais. Assim, pagam o aluguel para não serem despejados e também procuram quitar as contas que o acesso é indisponibilizado por falta de pagamento, como energia elétrica, água, internet, etc. A seguir, as famílias procuram manter em dia os compromissos com parentes e pessoas do convívio social. Finalmente, as famílias evitam fazer gastos desnecessários, não contraem dívidas, não parcelam compras, somente compram o essencial e têm até cortado gastos com a educação e com planos de saúde.

Na realidade o mercado de consumo está em dificuldades devido também ao alto endividamento das famílias, agregado às incertezas do desemprego e da perda de renda, fazendo com que as pessoas não possam fazer novos compromissos.

Diz o ditado que “a necessidade faz a oportunidade” e é o que temos visto acontecer no Brasil, com as pessoas perdendo emprego e tornando-se empreendedores para sobreviver, principalmente com produção doméstica.

Além disto, a crise tem distanciado as pessoas da política, optando por lutar por si mesmas, entregues à própria sorte e esforço, não esperando nada do governo e descrentes com promessas eleitorais e populistas. A crise econômica também é agravada pelas sucessivas crises políticas, onde os membros do governo estão mais preocupados com a sua própria sobrevivência e não em adotar medidas efetivas para melhorar a vida da população, como a instituição de políticas públicas de geração de emprego ou mesmo voltadas para a educação, inclusive financeira.

A educação financeira envolve diversos conhecimentos sobre o controle dos gastos, sobre as compras efetuadas com cartões de crédito, o agendamento dos gastos, a aplicação obrigatória de parte dos rendimentos, a aquisição de bens imóveis, a análise das aplicações existentes, o controle do volume de dívidas existentes, a quantidade de gastos fixos, etc. Não ter noções básicas de finanças é ficar dependendo das informações dos agentes econômicos, muito mais interessados em gerar maior retorno financeiro para suas empresas.

A percepção da nova classe média é que não pode manter o seu padrão de vida às custas do endividamento desenfreado e devem manter os gastos dentro de níveis que possam tranquilamente ser pagos com os seus rendimentos.

 

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