O ano termina com festas, mas também com muitos casos de violência contra a mulher. De acordo com um levantamento feito pelo jornal O Tempo, somente nas ocorrências que foram noticiadas, o número de mulheres agredidas em Minas Gerais foi de, ao menos, 18, em pouco mais de dez dias – do dia 24 de dezembro até o dia 4 de janeiro. Esse número, porém, está longe da realidade, já que, nessa época do ano, o índice de boletins de ocorrência aumenta e o recorte levou em consideração apenas alguns casos.

“Em relação às festividades de fim de ano, existe um aumento de casos de violência contra a mulher devido ao uso abusivo de álcool e drogas, o que não justifica essa conduta. Além disso, nessa época do ano, as pessoas estão mais cansadas, os ânimos ficam mais exaltados. Outra questão é que muitas mulheres decidem terminar o relacionamento por conta das resoluções de ano novo, porém muitos homens não aceitam, e isso gera violência”, explica a delegada Renata Ribeiro, chefe da Divisão Especializada em Atendimento à Mulher (DEMID).

Quando se compara o número de ocorrências registradas somente nos últimos janeiros, o índice “cresce” cerca de 1.000 casos em relação aos demais meses do ano. Em janeiro de 2021, foram 13.675, enquanto em fevereiro do mesmo ano, a soma foi de 11.158, de acordo com os dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).

Porém, não é só nas festas de fim e início de ano que as mulheres são vítimas de violência. O comportamento agressivo ao redor delas está presente durante todo o tempo. Para se ter uma ideia, até novembro do ano passado foram 125.638 casos, ou um a cada quatro minutos. Em 2021, o total foi de 145.584, já no ano anterior, o índice foi pouco menor: 145.523.

Esse triste e preocupante cenário, muitas vezes, está alicerçado nos braços invisíveis do machismo, conforme destaca Luiza Santos, coordenadora do Projeto de Pesquisa e Extensão em Crimes contra a Mulher da Universidade Federal de Minas Gerais (Crim/UFMG).

De acordo com a especialista, aspectos culturais influenciam o comportamento de homens e mulheres negativamente. Enquanto eles, muitas vezes, acabam por naturalizar a violência, elas são criadas como eternas dependentes economicamente e emocionalmente dos homens. Além disso, nem sempre as mulheres se dão conta de que estão em um relacionamento abusivo, conforme Luiza.

“O relacionamento não começa com violência física. Essa violência física, muitas vezes, é o final. Geralmente, no início há um ciúme obsessivo. O homem não deixa a mulher se relacionar com os amigos e com a família. Também faz críticas pesadas, desvaloriza as roupas que ela usa… Vai surgindo um controle sobre com quem a mulher conversa, sobre as redes sociais, uma privação de liberdade. Quando a violência física chega, a vítima, muitas vezes, já não tem forças para se impor”, diz Luiza.

Paula* (nome fictício a pedido da entrevistada) conhece bem todas essas etapas de um relacionamento abusivo. Ela conta que, no início, tudo “era lindo, semelhante a um sonho”. Por isso, ela demorou a perceber que o companheiro não era o ‘príncipe’ que ela acreditava ter conhecido.

“Ele era muito romântico, sempre me dava presentes, falava o quanto me amava, me tratava como uma rainha. Porém, depois de um tempo, começou a colocar muitos defeitos em mim, a debochar do que eu falava. Tudo foi só aumentando até se transformar em violência física. Porém, o medo me impedia de fazer algo”, diz ela.

Esse medo e a vergonha, segundo a delegada Renata Ribeiro, atingiram não só Paula*, mas muitas mulheres, sendo um dos principais fatores para que elas não busquem ajuda. No entanto, diz ela, é essencial procurar as forças de segurança. Caso contrário, o agressor não se sente responsabilizado pelo o que faz, podendo agravar ainda mais a situação.

“Quando há silêncio, o agressor não se sente responsabilizado. É necessário que a mulher busque ajuda. A grande maioria das vítimas de feminicídio não tinha medida protetiva, por exemplo, e isso é muito importante. As mulheres também podem solicitar acompanhamento até o endereço onde residem para tirarem seus pertences, serem encaminhadas para Casa Abrigo e mesmo procurar serviço de atendimento psicossocial para que consiga romper o relacionamento de forma definitiva. Se terminar um relacionamento que não é abusivo muitas vezes já é difícil, em relação ao abusivo é ainda mais, com a mulher fragilizada e com a autoestima baixa”, afirma ela.

Conforme especialistas destacam, a violência contra as mulheres, muitas vezes, as tornam vulneráveis e com sentimentos conflitantes. Por isso, é muito importante que familiares e amigos também estejam atentos ao comportamento e ao relacionamento delas e intervenham sempre que possível, mostrando-se também um apoio para os momentos difíceis.

“O combate à violência contra a mulher é um trabalho que tem que ser feito por toda a sociedade. Não se pode mais tolerar esse tipo de comportamento violento e baseado nessa questão machista. Se uma pessoa tem conhecimento de que uma familiar, amiga, vizinha está sofrendo, é importante conversar com ela, orientá-la a buscar ajuda, buscar acompanhamento”, finaliza.

Saiba onde pedir ajuda

  • Ligue 180 – Para orientação às mulheres em situação de violência e denúncia
  • Ligue 190 – Se ouvir gritos ou sons de briga e para emergências
  • Ligue 192 – Para emergência médica
  • Disque 100 – Para casos de agressões a crianças e idosos
  • Defensoria Pública Especializada na Defesa dos Direitos da Mulher em Situação de Violência (Nudem-BH). Contato pelo e-mail [email protected] ou pelos telefones: (31) 98475-2616 / 98464-3597/  98239-8863 / 98306-1247
  • Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher: 3330-5752
  • Centro Especializado de Atendimento à Mulher Benvinda: (31) 98873-2036/ [email protected]
  • Centro Risoleta Neves de Atendimento (Cerna): (31) 3270-3235 / 3270-3296
  • Casa de Referência da Mulher Tina Martins: (31) 3658-9221 ou pelo e-mail [email protected]
  • Promotoria de Justiça Especializada no Combate à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (31) 3337-6996/ [email protected]

Fonte: O Tempo

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