A Polícia Civil investiga um pastor da igreja do Evangelho Quadrangular Aliança Profética, no bairro Céu Azul, região de Venda Nova, em Belo Horizonte. Entre as denúncias, estão crimes de estupro de vulnerável, com “brincadeiras maliciosas”, que envolveram, segundo denúncias, “toques nas partes íntimas”, além de assédio moral. Ao menos três vítimas prestaram depoimento, nessa segunda-feira (20), na Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca). A reportagem conseguiu contato telefônico com o pastor, que se recusou a falar sobre a investigação e desligou o celular.

Todas as vítimas que prestaram depoimento vão ter a identidade preservada. Duas delas são jovens que tinham menos de 14 anos à época dos crimes. O primeiro alega ter sofrido abuso dos 8 aos 15 anos, enquanto o segundo aos 13. Nos dois casos, o pastor pode responder pelo crime de estupro de vulnerável, devido à idade das vítimas — caso a Polícia Civil ofereça denúncia ao Ministério Público, a Justiça aceite e ele seja condenado.

Depoimento de uma das supostas vítimas

O terceiro depoimento foi prestado por um jovem que alega ter sofrido importunação sexual e abusos por quatro anos, quando tinha 20 anos. Ele começou a frequentar a igreja e confiou na “figura do pastor” como “líder religioso e pessoa que busca o melhor para a vida dos outros”. Contudo, não demorou a encontrar uma realidade “perturbadora”. “Via muitas brincadeiras com jovens e adolescentes, de dar selinho na boca. Brincadeiras que invadiam a privacidade das pessoas. Ele pegava nos órgãos genitais para medir tamanho”, relata.

Em um dos episódios, o próprio jovem sofreu importunação sexual. “O pastor entrou no meu quarto, sentou na beirada da cama e tirou o órgão sexual dele, ereto, para fora do short. Em seguida, pegou na minha mão para encostá-la nele. Ele tentou forçar, mas eu neguei. Ele usou a posição dele para me persuadir, mas não conseguiu”, relembra.

O jovem também afirma que eram comuns os casos de assédio moral e injúria racial. “Ele ridicularizava as pessoas pelo fato delas serem gordas, negras. Sempre tentava se manter no topo. A gente meio que tinha uma lavagem cerebral, porque achávamos que era normal, devido ao fato dele ser uma figura religiosa”, relembra.

Publicação expõe denúncia

O professor e pastor Leonardo Alvim de Melo foi quem auxiliou as vítimas. Nas redes sociais, ele postou um vídeo reunindo alguns dos relatos que recebeu sobre os crimes que teriam sido cometidos ao longo de mais de uma década. “Em seguida, comecei a receber relatos de várias vítimas. Por isso, acredito que o número seja muito maior”, afirmou.

A postagem, nesta segunda-feira, já contava com mais de 500 comentários, por volta das 16h. Alguns dos internautas até demonstraram conhecer histórias relacionadas ao pastor. Uma pessoa comentou: “tenho algumas histórias para contar”. Outro escreveu: “já fui humilhada e maltratada por esse indivíduo que se diz pastor”.

O pastor Leonardo Alvim acredita que as supostas denúncias tenham demorado a se tornar públicas devido ao medo das vítimas e das famílias. “Devido à exposição da criança e do adolescente abusado, as famílias preferem não denunciar. O medo causado pelo abuso sobre as famílias, o que seria um escândalo para a igreja”, diz.

Brincadeiras maliciosas

Conforme o pastor Alvim, as denúncias envolvem a prática de “brincadeiras maliciosas” por parte do suspeito. “Ele pegava na parte íntima dos meninos e usava isso como brincadeira. Ele os levava para cachoeiras, bancava viagem, e lá arrancava a roupa e jogava longe, pedindo-os para buscar. Um dia, ele tirou o pênis e mandou eles tocarem. Praticava masturbação na frente deles”, conta.

O advogado e também pastor Marcelo Machado atua no caso. Ele afirma que as vítimas, inclusive, “estão coagidas, com medo de denunciar e relatar”. “Alguns abusos, ele praticava em tom de brincadeira. Dar beijinhos, toques nas partes íntimas. O perfil dessas vítimas são adolescentes de 13 a 15 anos”, conta.

O outro lado

A reportagem do jornal O Tempo entrou em contato com o pastor, que apenas disse não ter conhecimento sobre a investigação policial. Em seguida, encerrou a ligação. Foram feitas novas tentativas de contato, mas todas sem sucesso.

A igreja do Evangelho Quadrangular também foi procurada pelo O Tempo, mas não respondeu.

Como denunciar?

Denúncias de crimes sexuais podem ser feitas, de maneira anônima, por meio do telefone 181. Também é possível procurar a delegacia de Polícia Civil mais próxima. Em caso de emergência, acione a Polícia Militar, por meio do telefone 190.

Estupro de vulnerável 

Qualquer ato libidinoso praticado contra uma pessoa menor de 14 anos é considerado estupro de vulnerável no Brasil. A classificação ocorre independentemente da duração do ato ou da sua superficialidade. A pena inicial para o crime, previsto no artigo 217-A do Código Penal Brasileiro, é de 8 a 15 anos.

Considera-se estupro de vulnerável, também, quando alguém pratica as mesmas ações contra alguém que, por doença ou algum tipo de deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência, como o estado de embriaguez.

A advogada criminalista Mariana Migliorini explica que a diferença entre o estupro e o estupro de vulnerável é justamente o estado da vítima. Se ela não conseguir oferecer resistência por alguma condição permanente ou momentânea, como a inconsciência ou fragilidade por uso de bebida alcoólica ou entorpecentes, o delito é configurado como estupro de vulnerável.

Fonte: O Tempo

 

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