Os gabinetes dos ministros Cristiano Zanin e Gilmar Mendes confirmaram nesta segunda-feira (14) que receberam da Polícia Federal (PF) a íntegra do material extraído do celular apreendido do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do antigo Banco Master.
A entrega ocorreu após Zanin e Gilmar encaminharem ofícios à PF determinando o acesso aos dados. A medida veio depois de o ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), ter resistido à liberação do conteúdo.
No sábado (12), Mendonça afirmou que a disponibilização da íntegra dos dados poderia colocar em risco investigações em andamento e “somente contribuiria para tumultuar” um julgamento sobre a relação entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes.
Zanin e Gilmar haviam solicitado o acesso ao conteúdo completo na semana passada. Os ministros argumentam que precisam analisar todas as mensagens enviadas por Vorcaro, e não apenas o recorte selecionado pelos investigadores da PF, antes de participarem do julgamento.
Moraes também pediu que o presidente do STF, Edson Fachin, determinasse o envio do espelhamento do celular de Vorcaro a todos os ministros da Corte. Segundo Moraes, “não cabe ao relator escolher quais os documentos acessíveis ao colegiado para realizar seu julgamento”.
Mendonça, por sua vez, sustentou que o acesso à íntegra do material não seria necessário para o julgamento. O ministro afirmou ter acesso “exatamente do mesmo conjunto de elementos de informação franqueado aos demais pares que irão participar da referida sessão”.
O plenário do STF tem marcado para esta terça-feira (15) o julgamento de um relatório da PF que aponta que Vorcaro enviou 52 mensagens a Moraes entre 2023 e 17 de novembro de 2025, data em que o ex-banqueiro foi preso preventivamente.
De acordo com o relatório, Vorcaro aparentava manter uma relação próxima com Moraes. Em uma das mensagens, o ex-banqueiro teria enviado para apreciação do ministro um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.
Em outro trecho, Vorcaro teria buscado informações sobre uma operação que estaria prestes a prendê-lo.
Até o momento, Moraes nega qualquer contato com Vorcaro. A Polícia Federal informou que as respostas do interlocutor ao ex-banqueiro não puderam ser recuperadas.
Ainda não foi esclarecido pelo Supremo qual será o rito do julgamento nem se Moraes e Mendonça participarão da sessão plenária. A Constituição e o regimento interno do STF estabelecem que cabe exclusivamente ao plenário processar e julgar ministros da Corte, mas não detalham os procedimentos que devem ser adotados nesse tipo de situação.
No julgamento desta terça-feira, o plenário do Supremo deverá decidir se abre ou não uma investigação sobre a ligação entre Vorcaro e Moraes.
Os ministros também deverão analisar um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) para anular o relatório produzido pela PF. A PGR argumenta que a elaboração do documento foi irregular porque Mendonça não comunicou a presidência do Supremo nem solicitou autorização do plenário antes de permitir o avanço de investigações contra outro integrante da Corte.
Depois de retirar o sigilo do relatório da PF que cita Moraes, Mendonça pediu que o plenário decidisse sobre a abertura de uma investigação envolvendo o ministro.
Em resposta, Moraes divulgou o que classificou como um “relatório de inteligência” da PF. Segundo o documento, Mendonça poderia estar direcionando as investigações da operação Compliance Zero com o objetivo de atingir desafetos políticos.
O material, porém, não é assinado, não apresenta o timbre da Polícia Federal e traz na capa um alerta de que foi produzido como uma conjectura e “sem valor probatório”.
Moraes também pediu a Fachin a abertura de uma investigação contra Mendonça por suspeita de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade.
O presidente do Supremo marcou para 23 de setembro o julgamento desse pedido.
A entrega da íntegra dos dados do celular de Daniel Vorcaro a Cristiano Zanin e Gilmar Mendes ocorre às vésperas do julgamento previsto no plenário do STF. A análise dos ministros deverá envolver tanto o conteúdo das mensagens atribuídas ao ex-banqueiro quanto os questionamentos sobre a condução das investigações.
O caso também envolve divergências entre integrantes da própria Corte sobre o acesso às informações, a validade do relatório da PF e os procedimentos para eventual investigação de ministros do Supremo.
Com informações da Agência Brasil






