Chegamos ao final de 2015 em meio a uma das piores crises econômicas da história do Brasil. Somente nos primeiros nove meses do ano, quando os níveis de confiança de empresários e consumidores atingiram suas mínimas históricas, o PIB brasileiro encolheu 3,2%. Em Minas Gerais, a contratação da atividade foi ainda pior: -4,3%. Infelizmente, os dados mais recentes sugerem que, além de estar disseminada entre diversos setores da atividade, a queda na produção persiste no último trimestre do ano e deve avançar no começo de 2016. A reversão dessa tendência é, talvez, a tarefa mais urgente e desafiadora que temos pela frente na virada do ano.

A conjuntura atual é fortemente marcada pela deterioração orçamentária, tanto das famílias quanto do governo, proveniente da queda na renda, do aumento do desemprego, do elevado endividamento e da incapacidade do setor público de adequar suas despesas às receitas correntes. Nesse cenário, não é razoável esperar que uma retomada da atividade seja puxada pelo consumo interno. Tampouco se pode sugerir que o setor externo seja capaz de impulsionar substancialmente a produção doméstica diante da elevada competição internacional e do reduzido grau de abertura da economia brasileira. Assim, em nossa opinião, a retomada do crescimento econômico virá com a recuperação do investimento privado, o que coloca a empresa na posição de protagonista. A decisão de investir depende, naturalmente, da perspectiva de rentabilidade futura.

Contudo, no momento atual, marcado por elevada incerteza, torna-se cada vez mais difícil encontrar oportunidades de investimento produtivo com retorno superior ao custo do capital. Ações que contribuam para a estabilidade e previsibilidade do ambiente de negócios tendem a elevar a rentabilidade esperada dos projetos e, assim, contribuem para que o investimento privado seja capaz de dar o estímulo inicial à recuperação da produção no Brasil. Para que esse processo ganhe corpo, é fundamental que se restabeleçam a governabilidade e a capacidade de interação política entre os poderes executivo e legislativo. Sem elas, não será possível avançar em direção à adoção de políticas econômicas críveis, responsáveis e transparentes, características de um ambiente macroeconômico indutor do investimento privado. Outras ações são, também, essenciais.

Em particular, enfatizamos alguns pontos da agenda da CNI para a retomada do investimento, tais como o maior uso dos mecanismos de concessão e de PPPs, a adoção de novas regras de licitação para reduzir riscos de atrasos e paralisação de obras, o aperfeiçoamento da legislação ambiental aplicável às obras de infraestrutura em geral, o fortalecimento das agências reguladoras, o avanço na segurança jurídica e o foco nos projetos de infraestrutura de mobilidade urbana, logística, energia e saneamento, capazes de dinamizar a produção e reduzir custos para diversos setores. Consideramos que a articulação política entre trabalhadores e empresários, em suas respectivas entidades de classe, seja imprescindível para que propostas de melhoria no ambiente de negócios no país tenham maior probabilidade de materialização no curto prazo.

Também acreditamos que uma mobilização contrária à adoção de políticas insustentáveis de desequilíbrio fiscal, de elevação da carga tributária e de concessão de benefícios setoriais será extremamente benéfica à sociedade brasileira. Vale ressaltar que estudos recentes sugerem que ajustes fiscais que privilegiam o aumento das receitas do governo provocam maior desestímulo à atividade econômica do que aqueles que priorizam o corte de gastos públicos. Por fim, vale lembrar que, embora a lucratividade das empresas seja condicionada pelo ambiente externo, são as decisões de gestão interna que separam as firmas lucrativas daquelas que sucumbem às crises econômicas. Pode-se dizer que eliminação de custos desnecessários seja a melhor opção para aumentar a rentabilidade de qualquer firma, em qualquer momento.

Assim, recomendamos que, ao longo desses meses de atividade econômica enfraquecida, as empresas dediquem especial atenção à gestão de seu fluxo de caixa, evitem contrair dívidas financeiras, revejam contratos, avaliem a possibilidade de ingressar em novos mercados (internos e externos) e, fundamentalmente, dediquem-se continuamente ao aumento da produtividade. O investimento em ganhos de produtividade independe do ambiente econômico externo e permite que se antecipe ao novo ciclo de crescimento econômico. Sendo a empresa o setor econômico que mais se destaca no quesito evolução da produtividade, reiteramos nossa visão de que uma retomada do crescimento sustentável no Brasil passe pela recuperação do investimento privado na empresa doméstica.

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