A Câmara Técnica Assessora em Imunizações (CTAI) recomendou ao Ministério da Saúde que as vacinas bivalentes contra a COVID-19 sejam utilizadas como dose de reforço somente em grupos de maior risco, como idosos, imunossuprimidos e gestantes. Para outros públicos, como jovens sem comorbidades, faltam evidências sobre as vantagens que um novo reforço traria em evitar gravidades pela doença. A recomendação foi feita na quarta-feira.

De forma parecida, essa é a recomendação dada à coordenação da Saúde da transição do governo eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Arthur Chioro, ex-ministro da Saúde e integrante da coordenação, afirma que um foco importante na transição é regular o esquema de vacinação já recomendado para a população – por enquanto, não se discute a possibilidade de quinta dose para grupos não prioritários.

A pasta chefiada por Marcelo Queiroga anunciou, no dia 25, que doses da vacina bivalente produzida pela Pfizer deveriam chegar ao Brasil neste mês. O fármaco recebeu, no dia 22 do mês passado, aprovação emergencial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para ser usado em maiores de 12 anos.

Os imunizantes são compostos da cepa original do Sars-CoV-2 e também de subvariantes da Ômicron. Existem dois modelos: um contém a BA.1 e o outro, a BA.4 e BA.5. Por essa composição, eles são uma forma eficaz contra as formas do vírus com maior circulação no Brasil.

O quantitativo de doses dessa entrega não foi informado nem pelo ministério nem pela farmacêutica. A orientação atual do ministério é que, em pessoas acima de 40 anos, sejam aplicadas duas doses de reforço – configurando no total quatro doses para as vacinas da Pfizer, AstraZeneca e CoronaVac e três no caso da Janssen.

As recomendações dadas pela CTAI vêm no momento em que o ministério planeja o que fazer com as novas vacinas. A orientação de direcioná-las para públicos mais vulneráveis como um novo reforço não é uma definição, já que a câmara não tem função decisória. Mas, normalmente, o ministério segue o que o grupo recomenda.

A expectativa é que, nos próximos dias, a pasta chefiada por Queiroga divulgue um informe técnico atualizando o esquema vacinal contra COVID-19. Se as alterações realmente ocorrerem, uma quinta dose (ou quarta, para quem tomou Janssen) com o imunizante bivalente pode ser administrada para grupos de maior risco. A reportagem perguntou ao ministério se pretende seguir a direção da CTAI, mas até a noite de ontem não houve resposta.

Mais jovens
A recomendação da CTAI deixa de fora pessoas mais jovens e sem comorbidade do público-alvo das vacinas atualizadas. Segundo Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e membro da CTAI, a razão disso é que faltam evidências da real necessidade de revacinar os mais jovens com o novo modelo. “Nós não temos evidência de perda de proteção para formas graves em jovens“, diz.

Mesmo assim, Kfouri ressalta que, no futuro, o cenário epidemiológico pode mudar e então passar a ser necessário mais uma dose de reforço também para esse público. “Se entendermos que mesmo em jovens saudáveis sem fatores de risco tiver aumento de possibilidade de hospitalização e de formas graves, talvez seja a estratégia vacinar todo mundo de novo.

O posicionamento é reiterado por Chioro, da transição de Lula. Ele também recebeu aconselhamentos de especialistas e reafirma que a vacina bivalente, pelo menos com os dados atuais, não vai ser indicada para jovens no relatório entregue ao futuro ministro da Saúde. “A bivalente teria um espaço para grupos mais vulneráveis“, resume.

Para públicos com menores chances de evolução para quadros graves, o esforço vai ser de ampliar a taxa de cobertura vacinal para quem ainda não tomou as doses com os fármacos monovalentes. “O que ficou claro é que não adianta só comprar vacina, porque hoje tem (imunizantes) e as pessoas não estão tomando. Reduziu absurdamente a adesão da população“, diz Chioro.

Dados do consórcio de veículos de imprensa apontam que, até setembro, 48,4% dos brasileiros já haviam tomado pelo menos uma dose de reforço. Em relação a duas doses ou uma aplicação da Janssen, havia cerca de 80% da população.

Entre as crianças, os números são menores: entre as de 3 a 11 anos, somente 36% estão completamente imunizadas com duas doses. “Não adianta fazer um reforço com a bivalente se não vacinar as crianças“, resume Chioro.

 

Outros países
As vacinas atualizadas já são adotadas em países que buscam controlar a disseminação de novas variantes do Sars-CoV-2 e evitar quadros graves de COVID-19. No caso dos Estados Unidos, o Centro de Controle de Doenças (CDC) recomenda doses de vacinas bivalentes para adultos e adolescentes desde setembro. A indicação passou a ser também para crianças em outubro.

Recentemente, o órgão desenvolveu um estudo clínico cujos resultados foram publicados em 22/11. Na pesquisa, o manejo de uma dose dos imunizantes bivalentes resultou em uma proteção adicional para evitar casos sintomáticos em pessoas que tivessem tomado duas, três ou quatro aplicações dos modelos originais.

A proteção cresce quanto maior for o período de meses em que a pessoa tomou a última dose do imunizante original. Em indivíduos de 50 a 64 anos, o reforço com uma vacina atualizada levou a uma melhora da efetividade relativa de 31% de dois a três meses depois da última dose monovalente. Considerando a aplicação do imunizante bivalente após oito meses da última dose de um fármaco composto somente com a cepa original do Sars-CoV-2, a melhoria da efetividade foi de 48%.

Na Austrália, o Grupo Consultivo Técnico Australiano sobre Imunizações (Atagi, na sigla em inglês) recomenda as vacinas bivalentes tanto da Pfizer quanto da Moderna para pessoas acima de 18 anos. A autorização para o uso do imunizante da Pfizer, no entanto, é recente. Segundo agências internacionais de notícias, é esperado que o país receba 4,7 milhões de doses da farmacêutica e comece a aplicar o fármaco como reforço no próximo dia 12.

Na América Latina, o Chile também já autorizou a aplicação de reforço tanto para a Pfizer quanto para a Moderna. Diferentemente do que ocorreu nos Estados Unidos e na Austrália, o país optou por seguir um método de disponibilizar os novos reforços para públicos de maior risco, seguindo um modelo mais próximo do proposto ao Ministério da Saúde brasileiro.

Inicialmente, só profissionais de saúde e pessoas imunossuprimidas com mais de 12 anos tinham autorização para o fármaco. Mas, com o tempo, o Chile aumentou o público e agora pessoas com mais de 60 anos fazem parte desse grupo de vacinação. (Folhapress)

 

Fonte: Estado de Minas

 

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