Domingo, 23 de dezembro de 2012. São aproximadamente 18h35 e depois de verificar a imundície que tomou conta de nossas ruas, em virtude do funcionamento direto do comércio e do grande afluxo de pessoas que, certamente, deixaram para a última hora as compras natalinas, ao passar pelas imediações do Terminal Rodoviário, uma velha cena, mais que conhecida de nós todos, chegou gritando em meu cérebro a ponto de provocar-me ao mesmo tempo sentimentos diametralmente opostos: pena, raiva, indignação, sentimento de culpa, perdão, vontade de chorar, de ficar, de gritar, de me calar, quem sabe, para sempre!
Mas, ao velho estilo com a máquina fotográfica em mãos, tratei de mais uma vez registrar o que tanto me incomodava: Ali mesmo, diante de mim podia a um só tempo ouvir vozes e cânticos que talvez ecoassem de algum dos muitos templos que funcionam num raio de pouco mais de duzentos ou trezentos metros do ponto central da cena focada. Estes cânticos ou rezas se confundiam com os clamores de ajuda de uma dezena ou pouco mais de seres humanos espalhados pelo chão e bancos que circundam uma área nos jardins do entorno do Terminal. Todos pareciam famintos, apesar de alguns deles, talvez saciados pela droga se mostrarem indiferentes a tudo, a ponto de ignorarem a invasão por parte de um estranho no ninho. Apesar do calor, permaneciam enrolados em cobertores e apenas balbuciavam palavras ininteligíveis, talvez mostrando a este velho escriba que as tais cracolândias, quem sabe, também aqui existem e se proliferam. Quem duvidar que suba ali no alto da Rua Nova, do Pequi ou aqui mesmo, bem mais próximo, na região da antiga Estação Ferroviária.
?Ô Paulo Cuei, ajuda nóis. Discola ao menos um prato de comida pra nóis?, ouvi tão logo assestei as lentes da máquina em direção a um velho conhecido.
Logo após, um senhor que me pareceu até sóbrio, apesar das feições castigadas e da sujeira dos trapos que o cobriam, me disse: ?ei moço, me arranja um trabalho ? e notem, ele não pediu emprego, pediu trabalho ? pois eu encaro qualquer coisa. Menos ?selviço? de bandido ou de tiração de leite?. Engraçado, pensei. Por que esta exigência? Talvez amanhã ou depois, descubra. Se o fizer, prometo, voltarei ao assunto, aqui mesmo neste semanário.
Mas, vamos ao que interessa: Por que será que a secretaria que em princípio deveria cuidar deles e que hoje funciona a menos de 300 metros dali, exatamente onde antes havia uma repartição que cuidava de questões ligadas aos conflitos entre empregados e empregadores, apesar da proximidade, ainda não tomou nenhuma providência em favor daqueles pobres diabos? E se tomou, foi ineficaz, pois a verdade é que eles lá estão.
Até quando esta cidade terá que conviver com este tipo de problema? É certo que na véspera e no dia de Natal alguns ?caridosos? sairão do aconchego de suas casas ou dos templos que habitualmente frequentam e até, os enxergue ali e lhes sacie a fome com temperados restos, ou melhor, sobras da ceia do dia anterior ou lhes presenteie com peças de roupas que, após um banho de cuia, tomado ali mesmo junto a torneira que serve para se ligar a mangueira para a rega dos jardins, os vista até o próximo inverno quando a turma defensora dos chamados ?direitos humanos? sair novamente às ruas para cumprir sua árdua, mas generosa e necessária missão.
Ainda bem que eles existem. Todos eles. Doadores e receptores ou ?beneficiados? como os governos os apelidam. Tudo na vida é assim mesmo. Foi preciso que mais uma vez batesse de frente com esta realidade para que eu me lembrasse de que, passo por ali, diariamente, no mínimo quatro vezes por dia e… Por que será que só agora, consegui enxergar aquele ?bando? de irmãos, gente como a gente, sofrendo humilhações, passando fome, sendo discriminado e, apesar de tudo, sem esboçar qualquer sentimento de revolta? Será que eles perderam a capacidade de indignação e nós a de nos sensibilizarmos com o que vemos a nossa volta? E eu, o que houve comigo, especialmente, hoje? Terá sido este tal espírito de Natal, a mola que me fez acordar, assim tão repentinamente? Estarei mesmo acordado, ou sonhando?
O que vejo ali, ao vivo, a cores e até mesmo exalando certo odor, é real? Chego a pensar que o melhor, para eles, quem sabe, teria sido mesmo se o mundo houvesse terminado no dia 21 de dezembro, como muitos acreditavam. Só para eles não, para nós, também. Acho que me enganei novamente. Afinal de contas, melhor pensando, tudo indica que para eles, o mundo já terminou há muito tempo.
E, se nós todos, não mudarmos nosso comportamento em relação a este e a vários outros problemas, mormente os de cunho social, o máximo que poderemos dizer-lhes hoje é que o próximo ano, para eles e para tantos outros infelizes, talvez ainda seja pior. Portanto, que se virem sozinhos. Eles já não existem para nós. São invisíveis diante desta outra parte da sociedade. Assim sendo, é bom que se lembrem de que não há nada de ruim que não possa piorar. E foi nesta hora, que me veio a esquisita constatação de que se o próximo ano, para eles, pode ser ainda pior, que eles se resignem e se deem por satisfeitos por haverem sobrevivido neste ?Infeliz ano velho?.








