Em artigo anterior (“Santa Maria foi rebaixada?”), abordei marginalmente a recolocação de Maria em seu lugar, corrigindo alguns exageros, depois de quase 30 anos de estudos. A Igreja está atenta aos erros que temos na Bíblia de hoje (Cristo lia um Antigo Testamento diferente). Por isso, quando leio uma passagem da Bíblia, confiro também no grego koiné, no latim da Vulgata e na Nova Vulgata, que corrigiu muitos erros em 1979.
Lucas nos revela uma Maria muito diferenciada, uma menina que ouviu e cumpriu a palavra de Deus (Lc 8,21 e 11,27-28). Logo no primeiro capítulo, vemos dois anúncios paralelos de João Batista e Jesus que seguem outros três, Isaac (Gn 15), Sansão (Jz 13) e Samuel (1 Sm 1).
A saudação do Anjo Gabriel a Maria (Lc 1,26ss) deixa-a perturbada. Mas por quê? O anjo disse: “Ave, cheia de graça! O Senhor está contigo!” (em grego: Caire, kecaritomene, o Kyrios meta sou).
A palavra “caire” era a saudação grega mais comum, “Ave”, conforme o próprio Lucas usa nos Atos dos Apóstolos (15,23 e 23,26), mas alguns traduzem erradamente como “Alegra-te”. Nesse caso, precisaria estar acompanhado de outra palavra, como sfodra (exulta), por exemplo, (na Septuaginta) em Zacarias (9,9) e Sofonias (3,14-17).
A Nota Doutrinal Mater Populi fidelis vem nos esclarecer: a palavra kecaritomene só é aplicada a Maria, ninguém mais, nem João Batista. A tradução correta é “muito favorecida”, mas Jerônimo consolida a tradição “gratia plena”, cheia de graça. Pelo tempo verbal, Maria foi agraciada por Deus antes da visita do anjo. E o Kyrios refere-se a Deus-Pai. Depois, Isabel dirá “mãe do meu Senhor”, ou seja, Kyrios é Jesus, um indicativo da tese de Theotokos (a que pariu Deus) séculos depois (MPf 38).
“O Senhor é contigo” (o Kyrios meta sou) é uma frase comum no Antigo Testamento, como a Gideão (Juízes 6,12). Não é uma referência a Jesus no ventre, a concepção só acontecerá depois do sim (Lc 1,38).
Maria é a nova Filha de Sião que recebe e transmite a alegria da salvação (cf. Sf 3,14-17; Zc 9,9): “eis que vem a ti o teu rei, justo e vitorioso; ele é simples e vem montado num jumento, no potro de uma jumenta”. Nela se cumprem as promessas que fizeram saltar de alegria João Batista (cf. Lc 1,41). Uma curiosidade: em Jerusalém, os refugiados de Israel, em 721 a.C., ocupam a Colina de Sião, tendo pessoas de todas as tribos; Sião é uma amostra de Israel.
No paralelo com Samuel, o cântico de Maria (Magnificat), em Lucas (1,46-55), ecoa o cântico de Ana em 1 Samuel (2,1-10), com temas semelhantes de exaltação dos humildes e queda dos poderosos. Ambas são descritas como “servas do Senhor” e demonstram fé e obediência à vontade de Deus. E ainda “crescia em sabedoria e graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2,40, 2,52; 1 Sm 2,26). Vemos ainda que Maria é a Arca da Nova Aliança (paralelo de Lc 1 e 2Sm 6).
Inspirada pelo Espírito Santo, Isabel eleva Maria em igualdade com Jesus: “bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”. E que é honra receber a mãe do Senhor (meter tou Kyriou). Lucas ainda nos fala do nascimento, presépio, dos anjos e pastores, et cetera.
Mario Eugenio Saturno






