A ideia de que a internet depende majoritariamente de satélites não corresponde à realidade. Atualmente, cerca de 99% de todo o tráfego global de dados é transmitido por cabos submarinos. Estendidos ao longo do fundo dos oceanos, esses sistemas somam mais de 1,4 milhão de quilômetros de fibra ótica e conectam continentes, viabilizando praticamente todas as atividades online.
Apesar de discretos, os cabos possuem engenharia sofisticada. Um cabo submarino moderno tem espessura semelhante à de uma mangueira de jardim, mas é composto por um núcleo de fibras de vidro extremamente puras, protegido por múltiplas camadas de aço, polietileno e kevlar. Essa estrutura garante resistência à pressão oceânica, corrosão e até a possíveis danos causados por animais marinhos. Em termos de capacidade, cada cabo pode transmitir até 250 terabits por segundo.
A base dessa tecnologia remonta ao século XIX. Em 1858, foi instalado o primeiro cabo telegráfico submarino, conectando Irlanda e Canadá. Embora tenha funcionado por apenas três semanas, a iniciativa demonstrou a viabilidade da comunicação intercontinental por meio de cabos. Desde então, a infraestrutura evoluiu significativamente, atraindo investimentos bilionários de grandes empresas de tecnologia. Companhias como Google, Meta e Amazon financiam projetos próprios, como o cabo Grace Hopper, que conecta os Estados Unidos à Europa com capacidade de 350 terabits por segundo.
Além da relevância tecnológica, os cabos submarinos têm papel estratégico no cenário global. Mais de 95% das comunicações intercontinentais dependem dessa rede física, o que a torna uma infraestrutura crítica. Danos a um único cabo podem comprometer a conectividade de regiões inteiras, motivo pelo qual esses sistemas são monitorados continuamente por forças navais e agências de inteligência. Nesse contexto, a segurança digital também envolve a proteção dessas rotas subaquáticas.
Na prática, cada mensagem enviada ou site acessado percorre essa extensa rede de fibras óticas em velocidades próximas à da luz. A internet, portanto, não é apenas um conceito abstrato, mas uma estrutura física que atravessa os oceanos. Trata-se de uma complexa malha de cabos instalada em ambientes extremos, responsável por sustentar a comunicação global contemporânea.
Alexandre Bertozzi-Engenheiro eletricista e professor universitário. – [email protected]







