A cena é diária e real. O supermercado (100% do município) publica lista de produtos a serem adquiridos e dezenas de interessados apresentam propostas de preços para fornecê-los. Após uma semana, caminhões entregam as mercadorias no local (arroz, feijão, café, frutas, verduras, etc.). Dessa e de outras formas, a loja movimenta a economia local e presta atendimento personalizado para os clientes. Compra dos distribuidores e dos pequenos agricultores locais produtos, frutas e verduras, enfim, o dinheiro gira por ali (os produtores produzem, o supermercado vende, o consumidor compra, os trabalhadores recebem salários e os donos da loja auferem lucros e reinvestem).

Por anos esse movimento aconteceu, até o supermercado ser vendido para uma grande rede de lojas e deixar de ser administrado pela família fundadora.

A assunção da administração do supermercado foi um caos. Funcionários antigos pediram demissão ou foram demitidos, distribuidores e agricultores locais deixaram de fornecer produtos, as compras agora são feitas pela matriz, contadores e escritórios de advocacia locais foram descontratados, o consumidor deixou de ter um atendimento individualizado.

Este movimento está acontecendo no país inteiro, de forma cada vez mais frequente, em um movimento de crescimento e de consolidação das redes nacionais de supermercados, com diversas consequências, inclusive alterando a forma de funcionamento do comércio varejista nas pequenas cidades.

Outra forma das grandes redes de supermercado expandirem lojas pelo interior é com a abertura de novas lojas.

Em uma análise imediata e superficial, esse movimento parece trazer desenvolvimento para o município, pois gera um ilusório progresso no curto prazo, como aquisição de imóveis, grandes obras com a construção de grandes galpões, abertura de novas vagas de trabalho etc.

A verdade é que esse movimento somente favorece um pequeno número de empresas (grandes conglomerados).

No geral, acarreta desequilíbrio, enfraquece o pequeno empresário urbano e rural, causa o fechamento de pequenas lojas locais (mercados, vendas, armazéns, etc.), gera desemprego direto e indireto, retira do mercado pequenos comerciantes que adquiriam produtos de distribuidores e dos produtores rurais locais. O resultado é um empobrecimento local, envio dos lucros para matrizes e deixa em seu rastro o aumento do desemprego e menor renda para a população local.

Além disso, essas grandes redes não geram melhores preços para os consumidores e somente promovem enganadoras promoções (pontuais) e destroem cadeias de atendimento personalizado, com a substituição de atendimento por profissionais impessoais, sem preocupação com o bem-estar local e somente interessados em retirar lucros e enviá-los para fora da comunidade.

Euler Antônio Vespúcio – advogado tributarista

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