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Flávio Maluf e a Biomassa: Quando a Floresta Vira Energia Dentro da Própria Fábrica

Foto: UN

Há vinte e dois anos, paletes descartados por empresas da região de Salto começaram a alimentar caldeiras industriais da Eucatex. Desde então, mais de 100 mil toneladas de resíduos de madeira são recolhidas por ano junto a mais de 300 parceiros cadastrados e convertidas integralmente em biomassa para geração de energia térmica nas próprias fábricas da companhia [1][2].

Nenhum quilograma segue para aterro sanitário. Nenhum litro de óleo ou gás natural é acionado no processo que esse material alimenta. O mecanismo é simples na descrição e exigente na execução: resíduos de terceiros entram pela porta de coleta e saem como calor industrial. Dentro dessa cadeia, a floresta — ou o que sobrou dela depois de ser processada como embalagem, palete, retalho de móvel ou material de construção — vira energia dentro da própria planta que fabrica os produtos da Eucatex.

Flávio Maluf comanda a Eucatex desde 1997. Engenheiro de formação pela FAAP, com estudos em administração de negócios em Nova York, ele chegou à empresa em 1987 pela área de exportação e importação antes de migrar para as operações industriais. A decisão de instalar a primeira linha de reciclagem de madeira em escala industrial do país, em 2004, refletiu esse histórico: a Eucatex montou a maior central da América Latina não como declaração de valores, mas como solução operacional para um problema simultâneo de custo energético e de descarte de resíduos [2].

Da caçamba à caldeira: como funciona o sistema

O funcionamento é direto. A Eucatex disponibiliza caçambas a mais de 300 parceiros cadastrados, que podem agendar coletas gratuitas pelo programa. Os resíduos aceitos incluem paletes, pontaletes, caixas, retalhos de MDF, materiais da construção civil e podas de árvores — devidamente selecionados e sem presença de concreto ou contaminantes. A coleta cobre um raio de até 100 quilômetros a partir de Salto [1], cidade no interior de São Paulo onde está instalada a unidade principal de produção de chapas de fibra.

Do ponto de coleta até a caldeira, o material passa por triagem e processamento. O cavaco resultante abastece as caldeiras da unidade madeireira de Salto, gerando a totalidade da energia térmica consumida na produção de chapas de fibra e MDF [4]. O sistema elimina a necessidade de óleo ou gás natural nesse ciclo produtivo. A ECTX Ambiental, transportadora própria criada pela Eucatex para essa finalidade, opera a logística de coleta e distribuição. O resultado é regularidade no abastecimento e rastreabilidade completa do material transportado [2].

Em operações de biomassa, a regularidade no fornecimento às caldeiras é condição para que a substituição de combustíveis fósseis seja efetiva e não circunstancial. Uma frota terceirizada, sujeita a variações de disponibilidade e preço, comprometeria a previsibilidade operacional do sistema. A ECTX Ambiental resolve esse gargalo de dentro para fora.

Parceiros como ecopontos, aterros sanitários e profissionais autônomos também integram a rede de captação. Um dos casos que a Eucatex destaca é o trabalho desenvolvido pela APAE de Salto, organização sem fins lucrativos que participa do recolhimento de resíduos e obtém retorno financeiro para a própria instituição [2]. O modelo de captação, portanto, distribui valor para além da cadeia industrial direta.

Vinte anos de operação e uma expansão recente

O programa completou duas décadas de funcionamento em 2024. Em 2025, a Eucatex ampliou a iniciativa para além de Salto, integrando as unidades fabris Eucatex Fibra e Eucatex MDP, localizadas em Botucatu, ao escopo do Programa de Reciclagem [3]. A expansão aumentou a capacidade de captação de resíduos na região de Botucatu e replicou o modelo em mais de uma planta industrial. A biomassa de madeira reciclada tornou-se fonte energética presente em
duas unidades da companhia simultaneamente.

A IBÁ (Indústria Brasileira de Árvores), associação que reúne as principais produtoras de florestas plantadas do país, publicou nota sobre a expansão em abril de 2026. No texto, descreveu o programa como uma solução eficiente que alia desempenho ambiental, inovação e impacto positivo na cadeia produtiva [3]. A menção, vinda de uma das principais referências do setor florestal brasileiro, situa a iniciativa da Eucatex como modelo setorial, não como caso isolado.

A matemática ambiental do programa

Os números apurados anualmente pelo programa têm ordem de grandeza concreta. As 100 mil toneladas de madeira reciclada que abastecem as caldeiras correspondem à preservação de 1 milhão de árvores de eucalipto que deixam de ser cortadas para uso energético [2]. O ciclo da água embutido nessa conta soma 15 milhões de litros — a quantidade que seria consumida no plantio das árvores poupadas [4].

Esses dados revelam a lógica com que Flávio Maluf trata a gestão florestal da Eucatex: a floresta não é somente matéria-prima para produtos finais, mas um ativo de ciclo longo que precisa ser preservado onde possível. A Eucatex mantém hoje cerca de 48 mil hectares de florestas próprias no interior de São Paulo e produz 13 milhões de mudas clonais por ano, com uma das maiores taxas de incremento médio anual do setor no Brasil [5]. A captação de resíduos externos pelo Programa de Reciclagem reduz a pressão sobre esse ativo — menos árvores cortadas para caldeiras significa mais madeira disponível para os produtos de maior valor agregado da companhia.

Outra dimensão do programa é o alcance social construído ao longo do tempo. A Eucatex também mantém, nas áreas de plantio, o Programa de Apicultura, por meio do qual comunidades do entorno produzem mel em pasto apícola das florestas da empresa. São mais de 270 toneladas de mel geradas nos últimos sete anos, em cerca de 11 mil hectares de eucaliptos. Mais de 15 famílias têm na apicultura uma fonte direta de renda [1]. A bioeconomia aplicada à cadeia florestal, nesse modelo, não se encerra na portaria da fábrica.

Biomassa e solar: a composição da matriz energética

O Programa de Reciclagem responde pela energia térmica das fábricas. A energia elétrica tem outra origem. Em 2023, a Eucatex concluiu um investimento de R$ 300 milhões na Usina Solar Castilho, em Castilho (SP) — a maior planta solar em operação no estado, com capacidade instalada de 269 MWp [5]. Junto à biomassa, esse investimento compõe uma matriz em que 50% do consumo energético total das unidades fabris da companhia provém de fontes renováveis [5].

Essa proporção coloca a Eucatex em posição distante da média da indústria de transformação brasileira, setor que ainda depende amplamente de combustíveis fósseis para energia térmica. A combinação biomassa/solar não é apenas declaração de compromisso ESG: é estrutura de custo. A biomassa reduz o gasto com combustível nas caldeiras. A energia solar reduz a conta de eletricidade das fábricas. Os dois mecanismos atuam de forma complementar, e os dois partiram de decisões de investimento com horizonte de retorno de médio e longo prazo.

A integração das duas fontes também distribui o risco energético da companhia. Dependência exclusiva de biomassa exporia as operações a variações no volume de resíduos disponíveis para coleta. Dependência exclusiva de energia solar geraria vulnerabilidade à sazonalidade de geração. A combinação dos dois sistemas, com diferentes perfis de entrega, resulta numa matriz mais robusta do ponto de vista operacional.

A lógica de Flávio Maluf: floresta como base, não como custo

Flávio Maluf descreve o manejo florestal da Eucatex como uma das bases competitivas da empresa desde os anos 1950, quando o grupo plantou suas primeiras áreas de eucalipto no interior paulista. O Programa de Melhoramento Genético mantido pela empresa produz 13 milhões de mudas clonais por ano, com foco em materiais de maior produtividade e melhor adaptação às condições locais [5]. A certificação FSC — obtida pela Eucatex em 1996, antes de a maioria das indústrias brasileiras considerar padrões internacionais de manejo florestal — é o elo formal que conecta essas práticas às exigências de rastreabilidade que clientes em mais de 40 países impõem [5].

O desdobramento da base florestal em biomassa industrial segue essa mesma lógica. Se o eucalipto cresce para virar produto, os resíduos do processo de produção — e os resíduos de madeira de terceiros coletados no entorno das fábricas — também têm destinação técnica dentro da cadeia. Do ponto de vista de engenharia industrial, descartar esse material em aterro seria desperdiçar um insumo energético disponível a custo próximo de zero.

Em julho de 2025, a Eucatex recebeu o World Finance Sustainability Award na categoria Industrial and Commercial Wood [5]. O reconhecimento, concedido pela revista britânica World Finance, citou especificamente as práticas de manejo florestal, reciclagem e energia renovável como razões para a distinção. Ao comentar o prêmio, Flávio Maluf afirmou que a responsabilidade ambiental e o sucesso empresarial podem caminhar lado a lado — formulação que descreve, com precisão, o que o Programa de Reciclagem de Madeira demonstra operacionalmente há mais de duas décadas.

A expansão do programa para Botucatu em 2025, os R$ 300 milhões investidos na usina solar, os 48 mil hectares de floresta própria e os 13 milhões de mudas produzidas anualmente compõem um conjunto de decisões industriais que convergiram numa mesma direção antes que qualquer pressão regulatória ou de mercado tornasse esse caminho obrigatório. Nos mercados internacionais para onde a Eucatex exporta — mais de 40 países, com os Estados Unidos como principal destino — essa anterioridade importa. A gestão ambiental tratada como vantagem construída ao longo do tempo, e não como resposta a exigências externas, é parte do argumento competitivo que a empresa apresenta há décadas.

Fontes

[1] IBÁ — “Atividades florestais da Eucatex: bioeconomia de ponta a ponta”. Disponível em: https://iba.org/atividades-florestais-da-eucatex-bioeconomia-de-ponta-a-ponta

[2] Eucatex (Blog Morar Bem) — “Eucatex tem maior central de reciclagem de madeira em escala industrial da América Latina” ( 2022, atualizado em 2026). Disponível em: https://www.eucatex.com.br/blog/eucatex-tem-maior-central-de-reciclagem-de-madeira-em- escala-industrial-da-america-latina-2/

[3] IBÁ — “Avanço na economia circular pelo Programa de Reciclagem da Madeira da Eucatex” (29 abr. 2026). Disponível em: https://iba.org/comunicacao/noticias-do-setor/avanco-na- economia-circular-pelo-programa-de-reciclagem-da-madeira-da-eucatex/

[4] Mais Floresta — “Programa de Reciclagem de Madeira da Eucatex se destaca por pioneirismo e inovação no setor “(14 jun. 2024). Disponível em: https://maisfloresta.com.br/programa-de-reciclagem-de-madeira-da-eucatex-se-destaca-por-pioneirismo-e-inovacao-no-setor/

[5] FinancialContent / AB Newswire — “Flavio Maluf Leads Eucatex to World Finance Sustainability Award 2025 for Industrial and Commercial Wood Excellence” (7 jul. 2025). Disponível em: https://markets.financialcontent.com/stocks/article/abnewswire-2025-7-7-flavio- maluf-leads-eucatex-to-world-finance-sustainability-award-2025-for-industrial-and-commercial-wood-excellence

 

Autor:Tejas Maheta