Enquanto facções criminosas de fora do Estado, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), ‘tomam conta’ de Minas Gerais, policiais, prefeitos e representantes das forças de segurança denunciam a precariedade que coloca em xeque o combate à criminalidade. Com salário inicial de R$ 5.097 e ganhos líquidos de cerca de R$ 4 mil, policiais militares se sentem desvalorizados — a quantia é quase 40% menor do que a paga no Paraná, no Sul do Brasil, que lidera o ranking de remuneração. Além disso, os agentes precisam lidar com a falta de estrutura para trabalhar. Denúncias dão conta de que até pneus de viaturas precisam ser doados pelos municípios.

Um dos principais fatores que dificultam o combate ao crime, segundo policiais entrevistados pela reportagem de O Tempo, é a falta de efetivo. “Temos até viaturas, mas muitas estão paradas no pátio, pois faltam policiais. Isso prejudica as ações de combate e repressão ao tráfico de drogas, por exemplo”, diz um agente em anonimato.

Os números comprovam a queda de efetivo. Em audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), o deputado estadual Sargento Rodrigues (PL) informou que a Polícia Militar (PM) já chegou a ter um efetivo de 45 mil homens e hoje tem 37 mil. Na Polícia Civil, teria caído de 17 mil para 10,5 mil.

A queda de policiais é explicada, segundo o subtenente Heder Martins de Oliveira, presidente da Associação dos Praças Policiais e Bombeiros de Minas Gerais (Aspra), pela falta do desejo de potenciais agentes ingressarem na corporação devido ao salário ser considerado baixo. Levantamento realizado pela Federação Nacional de Praças (Anaspra) aponta que Minas Gerais tem o 17º salário do país para soldado.

“Os policiais sentem que o governo não tem dado a devida atenção que a categoria merece. É uma questão mais motivacional, de sentimento. Tivemos recomposição salarial em 2022. O governo assumiu o compromisso de refazê-la com as perdas inflacionárias levando em consideração o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), mas não temos perspectivas de quando isso vai acontecer”, afirma.

Quem corrobora com as críticas relacionadas aos vencimentos dos policiais e com a desmotivação dos agentes é o sargento Marco Antônio Bahia Silva, vice-presidente da Aspra. “Quem vai para a rua combater o crime é do soldado até o subtenente. Nós já fomos o quarto melhor salário de soldado no país. A longo prazo, nós corremos o risco de não termos policiais. O risco de morte no enfrentamento, aliado com a questão salarial, está desmotivando as pessoas a fazerem o concurso. Por mais que a pessoa queira trabalhar e tenha o desejo de atuar, o que vai motivá-la é o salário”.

Protesto

A reivindicação pela recomposição das perdas inflacionárias motivou uma manifestação de servidores da segurança pública de Minas Gerais, nesta quarta-feira (24 de abril), em frente à residência do governador Romeu Zema (Novo). Segundo o Sindicato dos Servidores da Polícia Civil (Sindpol-MG), cerca de 50 pessoas compareceram à manifestação.

Os policiais levaram uma faixa escrita: “Zema mentiroso, deu calote nos servidores da segurança” e gritaram palavras de ordem, pedindo para que o governo de Minas Gerais cumpra com a promessa de recomposição inflacionária dos servidores.

Uma nova manifestação foi marcada para a próxima terça-feira (30 de abril), na Cidade Administrativa. A expectativa é de que participem policiais civis, militares, penais e o Corpo de Bombeiros.

Situação ‘pede socorro’

Prefeito de Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, e presidente da Frente Mineira de Prefeitos (FMP) Daniel Sucupira (PT), afirma que a situação é preocupante na cidade e em outros municípios do interior do Estado. Conforme ele relata, muitas vezes as prefeituras precisam doar até pneus para que as viaturas policiais possam operar. Somente neste ano, diz ele, o executivo municipal repassou R$ 60 mil para a Polícia Militar. Já para a Polícia Civil, afirma o prefeito, a quantia chegou a R$ 2 milhões nos últimos oito anos, na forma de recursos diretos ou outros gastos, como reformas de unidades.

“Estamos vivendo um momento de muita ansiedade por parte da comunidade, com o aumento da violência. As polícias Civil e Militar estão se esforçando muito, dando a vida pela sociedade, mas por outro lado não veem apoio e incentivo. Antes, Minas Gerais ouvia falar do PCC e do Comando Vermelho apenas nas notícias vindas de fora. Agora, passa a conviver com essa situação, mas faltam investimentos para o combate, impactando em toda a dinâmica da segurança pública”, diz ele.

Nesse cenário, a “audácia” dos criminosos estaria só aumentando. No último dia 8 de março, a casa de um PM do município foi alvo de diversos tiros como forma de intimidação. No momento do ataque, ele estava trabalhando, porém esposa e filhas estavam na residência. Elas não se feriram.

Um vídeo que circula nas redes sociais também mostra bandidos, que seriam do Comando Vermelho, altamente armados alertando a polícia a “não se intrometer” com a guerra deles contra o PCC. E a polícia realmente estaria tendo dificuldades para estar em todos os locais e combater a criminalidade. “É um esforço humano quase que impossível o de cobrir uma área grande com falta de pessoal”, ressalta Sucupira.

Crescimento do crime

Especialista em segurança, Luis Flávio Sapori destaca que, realmente, a atuação do PCC e do Comando Vermelho está ocupando cada vez mais espaço na venda de drogas nas cidades mineiras. Por outro lado, diz ele, os salários dos policiais estão defasados e os recursos logísticos não são ideais. Isso não quer dizer, no entanto, segundo ele, que as forças de segurança ‘não estão dando conta do recado’. “Minas Gerais é preparada para lidar com essa realidade”.

Mesmo assim, à medida que esse cenário se intensifica, é preciso potencializar certas frentes. “É necessário incrementar o trabalho de inteligência integrada entre as polícias Militar, Civil, Federal, Rodoviária e o Ministério Público Estadual. É preciso que trabalhem compartilhando informações, mesmo com as condições não ideais, para excelentes resultados”, ressalta.

Fonte: O Tempo

 

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